Por que Putin se importa com as eleições legislativas — mesmo com resultado previsível
A Rússia realiza neste fim de semana eleições legislativas para os 450 assentos da Duma, a câmara baixa do Parlamento. O resultado é amplamente previsível: o partido no poder, Rússia Unida, deve manter o controle de uma casa extremamente leal a Vladimir Putin. Críticos rejeitam a votação, alegando que ela não é nem livre nem justa, mas o Kremlin não se importa com essas avaliações. "Temos nosso próprio sistema político, nosso próprio processo político", declarou recentemente o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.
Para o Kremlin, porém, a eleição tem peso próprio. É o primeiro pleito parlamentar no país desde a invasão em larga escala da Ucrânia. O governo usará o resultado para afirmar que a maioria dos russos apoia o presidente e a guerra, além de promover as carreiras políticas de soldados que retornaram do front. Segundo as autoridades, quase duzentos veteranos de guerra disputam a eleição.
A campanha ofereceu uma visão da sociedade russa quatro anos e meio após o início do conflito. Em um debate televisivo, os seis candidatos de um distrito não apareceram e o apresentador encerrou o programa sozinho. Em outro, um candidato apresentou seu discurso cantando. Na sessão final da Duma anterior, em julho, os deputados se levantaram e aplaudiram enquanto o presidente da casa repetia: "Rússia, Putin, Vitória!". O líder do Partido Comunista, Gennady Zyuganov, resumiu a dinâmica: "Todos os partidos na Duma, sem exceção, votaram a favor de 170 leis para apoiar a operação militar especial. Nesse sentido, há 100% de concordância na Duma."
O partido pacifista Yabloko, único registrado para as eleições que defendia um cessar-fogo na Ucrânia, foi retirado da cédula pela Suprema Corte doze dias depois de obter o registro — decisão amplamente interpretada como temor do Kremlin de que mensagens pacifistas repercutissem entre os eleitores. Alguns de seus candidatos ainda concorrem em disputas individuais por distrito, mas, nas últimas semanas, um número crescente deles tem sido detido, processado e impedido de participar. "A polícia está cumprindo ordens políticas. Isso não é segredo", afirmou o candidato Grigory Grishin, que diz acreditar que a demanda pelo fim do derramamento de sangue é muito popular no país.
As autoridades russas insistem que as eleições são transparentes e justas. Críticos apontam para opositores forçados ao exílio ou presos. No ano passado, Grigory Melkonyants, um dos líderes do grupo independente de monitoramento eleitoral Golos, foi condenado a cinco anos de prisão sob a acusação de trabalhar com uma "organização indesejável", e o grupo foi fechado. A oitenta quilômetros de Moscou, na cidade de Dmitrov, há poucos sinais de eleição. No centro, um memorial homenageia moradores mortos em combate na Ucrânia. "Eu gostaria que vivêssemos em um país pacífico, sem guerras", diz Polina. As expectativas de mudança são baixas. "Na Rússia, as eleições nunca trazem mudanças de governo", afirma Grishin.
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