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SOBERANIA OU SABOR SOBERANIA? O Brasil é realmente um país soberano? Em quê?

Atualizado em 12/09/2026 às 18:15 schedule 18 min de leitura visibility 36 visualizações share 9 compartilhamentos (0)
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Durante décadas, a palavra soberania esteve associada principalmente a território, fronteiras, independência política e capacidade militar.

Um país soberano era aquele que tinha:

  • território próprio;
  • governo próprio;
  • leis próprias;
  • fronteiras reconhecidas;
  • capacidade de tomar suas próprias decisões.

No século XXI, porém, essa definição parece insuficiente.

Hoje, uma nação pode possuir território, bandeira, eleições e Forças Armadas — e ainda depender profundamente de outros países para manter funcionando setores fundamentais de sua economia e de sua sociedade.

A soberania moderna também passa por:

  • energia;
  • alimentos;
  • fertilizantes;
  • medicamentos;
  • tecnologia;
  • semicondutores;
  • dados;
  • inteligência artificial;
  • satélites;
  • infraestrutura digital;
  • conhecimento científico.

E é exatamente nesse ponto que surge o grande paradoxo brasileiro.

O Brasil possui uma das maiores extensões territoriais do planeta. Tem abundância de água, enorme capacidade agrícola, petróleo, minerais, biodiversidade, energia renovável e uma população superior a 200 milhões de pessoas.

Mas será que possuir recursos significa, necessariamente, ser independente?

A resposta é mais complexa — e mais incômoda.

O Brasil é soberano. Mas não em tudo.

O Brasil é plenamente soberano como Estado nacional.

É politicamente independente.

Controla seu território.

Possui instituições próprias.

Tem uma economia diversificada e uma capacidade produtiva que o coloca entre os países mais importantes do mundo.

Mas soberania política não significa automaticamente autonomia econômica, industrial e tecnológica.

E talvez seja justamente essa diferença que esteja sendo pouco discutida no atual debate brasileiro.

A pergunta não deveria ser apenas:

“O Brasil é soberano?”

A pergunta deveria ser:

“Soberano em quê?”

 

A riqueza que o Brasil realmente possui

Poucos países reúnem tantos recursos naturais e produtivos quanto o Brasil.

Somos uma potência em:

  • produção de alimentos;
  • proteínas animais;
  • soja;
  • milho;
  • café;
  • açúcar;
  • celulose;
  • mineração;
  • petróleo;
  • energia hidrelétrica;
  • energia solar;
  • energia eólica;
  • biocombustíveis.

O agronegócio, sozinho, representa uma parcela extraordinária da presença brasileira no comércio internacional.

O país consegue alimentar sua população e exportar alimentos para dezenas de mercados.

Mas existe uma contradição.

A agricultura brasileira depende de insumos que não controla completamente.

O próprio governo federal reconhece que o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza. O Plano Nacional de Fertilizantes foi criado justamente para reduzir essa vulnerabilidade e tem como horizonte ampliar a produção nacional para atender entre 45% e 50% da demanda interna até 2050.

Em números ainda mais específicos, dados governamentais mostram uma dependência particularmente elevada em nutrientes estratégicos. Dados referentes a 2023 apontaram importação de aproximadamente 95% dos fertilizantes nitrogenados consumidos, 66% dos fosfatados e 97% dos potássicos.

O paradoxo é evidente:

O Brasil é uma potência mundial na produção de alimentos, mas depende do exterior para uma parcela essencial dos insumos necessários para produzir esses alimentos.

Isso não significa que o Brasil seja fraco.

Significa que sua cadeia produtiva possui um ponto vulnerável.

E soberania, no século XXI, precisa ser analisada como uma cadeia.

Não adianta controlar o último elo se os primeiros dependem de fornecedores externos.

 

O país que exporta riqueza e importa capacidade

Os números do comércio exterior ajudam a explicar esse dilema.

Os dados oficiais do MDIC mostram que o Brasil continua sendo uma grande potência exportadora, com forte presença da indústria, da agropecuária e da mineração no comércio internacional. A base oficial do Comex Stat mantém dados detalhados até agosto de 2026.

Mas olhar apenas o total exportado pode esconder uma diferença importante.

O que exportamos?

O Brasil é extremamente competitivo em:

  • alimentos;
  • produtos agrícolas;
  • carnes;
  • celulose;
  • minério;
  • petróleo;
  • açúcar;
  • commodities minerais;
  • produtos industriais intermediários.

E o que importamos?

Os dados acumulados de 2026 mostram entre os itens relevantes das importações brasileiras:

  • combustíveis refinados;
  • fertilizantes químicos;
  • veículos;
  • medicamentos;
  • produtos farmacêuticos;
  • semicondutores;
  • componentes eletrônicos;
  • equipamentos de telecomunicações;
  • instrumentos de medição e controle;
  • compostos químicos especializados.

Somente entre os principais itens da indústria de transformação importados aparecem quase US$ 10 bilhões em fertilizantes químicos, mais de US$ 6,6 bilhões em semicondutores e mais de US$ 6,6 bilhões em medicamentos e produtos farmacêuticos no período apresentado pelo MDIC.

A diferença é fundamental.

Não importamos apenas produtos. Muitas vezes importamos conhecimento incorporado em produtos.

Dentro de uma máquina sofisticada existe engenharia.

Dentro de um chip existem décadas de pesquisa.

Dentro de um equipamento médico existe ciência acumulada.

Dentro de uma tecnologia industrial existem patentes, universidades, laboratórios, empresas e investimentos.

Temos os recursos. Mas dominamos a cadeia?

Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes para o futuro brasileiro.

O Brasil possui minério.

Mas possuir minério não significa automaticamente fabricar os equipamentos mais sofisticados produzidos a partir dele.

O Brasil possui petróleo.

Mas produzir petróleo não significa dominar todas as tecnologias, equipamentos e componentes da cadeia energética.

O Brasil possui silício e minerais estratégicos.

Mas isso não significa produzir chips de última geração.

O Brasil possui terras raras e outros minerais críticos.

Mas a soberania econômica depende também da capacidade de:

  • processar;
  • refinar;
  • transformar;
  • industrializar;
  • patentear;
  • desenvolver tecnologia;
  • produzir equipamentos;
  • exportar produtos de alto valor agregado.

É a diferença entre vender matéria-prima e controlar uma cadeia industrial.

O recurso natural é o começo da riqueza.

A tecnologia é aquilo que define quanto valor será criado a partir dele.

Semicondutores: o pequeno componente que revela uma grande dependência

Poucos produtos representam tão bem a soberania tecnológica moderna quanto os semicondutores.

Os chips estão presentes em:

  • celulares;
  • computadores;
  • automóveis;
  • equipamentos médicos;
  • satélites;
  • redes de telecomunicações;
  • sistemas bancários;
  • máquinas industriais;
  • equipamentos agrícolas;
  • inteligência artificial;
  • sistemas militares.

O Brasil possui conhecimento, pesquisadores e empresas atuando em partes dessa cadeia.

Mas ainda não controla integralmente um ecossistema capaz de competir com os grandes polos mundiais.

O próprio governo brasileiro reconhece essa necessidade.

O Programa Brasil Semicondutores, conhecido como Brasil Semicon, foi estruturado para fortalecer pesquisa, desenvolvimento, design, produção e inovação na cadeia nacional de semicondutores. O programa busca ampliar o conteúdo tecnológico produzido no país e desenvolver um ecossistema que inclui desde atividades industriais até serviços intensivos em conhecimento.

O simples fato de o país precisar estruturar uma política nacional para fortalecer esse setor revela uma realidade:

Semicondutores são estratégicos demais para serem tratados apenas como mais um produto do comércio internacional.

E essa lógica vale para muitas outras áreas.

 

O Brasil é uma potência energética?

Aqui o cenário é mais favorável.

O Brasil possui uma das matrizes energéticas mais diversificadas do mundo.

Tem:

  • hidrelétricas;
  • petróleo;
  • gás natural;
  • biomassa;
  • etanol;
  • energia solar;
  • energia eólica.

Isso representa uma vantagem estratégica enorme.

Mas também é preciso evitar simplificações.

Produzir petróleo não significa que um país seja automaticamente independente em todos os derivados e combustíveis.

Uma economia pode:

produzir petróleo;

exportar petróleo bruto;

importar determinados derivados;

depender de equipamentos e tecnologias estrangeiras em partes da cadeia.

A verdadeira análise da soberania energética precisa observar toda a cadeia:

produção + refino + transporte + equipamentos + tecnologia + distribuição.

E é justamente isso que diferencia possuir um recurso de dominar um setor.

 

Saúde: a pandemia ensinou uma lição ao mundo

O Brasil possui instituições científicas e industriais extremamente relevantes.

Temos:

  • Fiocruz;
  • Instituto Butantan;
  • universidades;
  • laboratórios públicos;
  • indústria farmacêutica;
  • centros de pesquisa.

Mas o comércio exterior mostra que medicamentos e produtos farmacêuticos continuam tendo peso relevante nas importações brasileiras.

A pandemia demonstrou que nenhum país pode considerar a saúde apenas uma questão comercial.

Em momentos de crise internacional, a pergunta deixa de ser:

“Onde está mais barato comprar?”

E passa a ser:

“Quem consegue fornecer?”

Soberania também significa possuir capacidade para proteger a população quando o mercado internacional entra em crise.

 

O tamanho do Estado: o problema é realmente esse?

Quando o debate chega à economia brasileira, surge uma crítica recorrente:

“O Estado brasileiro é grande demais.”

Mas essa afirmação precisa ser analisada com mais cuidado.

O tamanho do Estado, sozinho, não explica eficiência ou fracasso.

Existem países altamente desenvolvidos com Estados grandes.

Existem países com Estados menores que possuem serviços públicos precários.

Portanto, a pergunta mais inteligente não é:

“O Estado é grande?”

Mas:

“O que o Estado entrega em troca do que custa?”

Em 2025, a carga tributária bruta do governo geral brasileiro foi de 32,40% do PIB, segundo o Tesouro Nacional.

Esse número mostra que uma parcela significativa da riqueza produzida pela sociedade brasileira passa pelo Estado.

Mas o debate não pode parar na arrecadação.

A pergunta seguinte precisa ser:

Quanto dessa capacidade financeira está construindo o futuro?

 

O custo-benefício da máquina estatal

Um Estado pode gastar muito dinheiro e ainda assim produzir pouco desenvolvimento estratégico.

Tudo depende de onde os recursos são aplicados.

Um país pode concentrar suas despesas em:

  • manutenção administrativa;
  • folha de pagamento;
  • aposentadorias;
  • transferências;
  • juros;
  • custeio da máquina.

E investir relativamente pouco em:

  • infraestrutura;
  • ciência;
  • inovação;
  • tecnologia;
  • educação de alta qualidade;
  • pesquisa aplicada;
  • industrialização avançada.

Essa não é uma crítica à existência de políticas sociais.

Proteção social é fundamental em qualquer sociedade complexa.

O problema surge quando um país perde a capacidade de equilibrar:

o presente com o futuro.

A questão central é:

Estamos usando a riqueza produzida hoje para criar capacidade para amanhã?

Ou estamos utilizando a maior parte dela apenas para manter funcionando a estrutura existente?

Estado grande não é sinônimo de Estado forte

Essa talvez seja uma das maiores confusões do debate brasileiro.

Um Estado pode ser enorme e, ainda assim:

  • burocrático;
  • lento;
  • ineficiente;
  • pouco tecnológico;
  • incapaz de executar projetos;
  • incapaz de avaliar resultados.

Da mesma forma, um Estado pode ser menor e possuir grande capacidade de coordenação.

A força de um Estado não deveria ser medida apenas por:

  • número de servidores;
  • quantidade de órgãos;
  • orçamento;
  • número de leis.

Um Estado forte é aquele capaz de:

  • planejar;
  • executar;
  • fiscalizar;
  • investir;
  • responder a crises;
  • proteger setores estratégicos;
  • criar ambiente para inovação.

O tamanho importa.

Mas a capacidade importa mais.

 

O grande problema brasileiro: confundimos projeto de governo com projeto de país

Aqui está, talvez, o ponto político mais importante desta reportagem.

A dependência brasileira de fertilizantes não começou no atual governo.

A dependência tecnológica não começou no governo anterior.

A dificuldade de transformar ciência em indústria não nasceu em uma única administração.

Esses problemas atravessaram:

governos de esquerda;

governos de centro;

governos de direita.

Então por que continuam existindo?

Uma possível resposta está no nosso modelo político.

O Brasil possui projetos de governo.

Mas frequentemente tem dificuldade de manter projetos nacionais permanentes.

Uma fábrica tecnológica não se consolida em quatro anos.

Uma política educacional leva décadas.

Um ecossistema de inovação pode levar vinte ou trinta anos para amadurecer.

Uma indústria estratégica precisa sobreviver a:

eleições;

mudanças de governo;

crises econômicas;

mudanças ideológicas.

Mas o ciclo político funciona em outro ritmo.

eleição → governo → disputa → eleição.

E isso cria uma contradição.

Enquanto a ciência trabalha em décadas, a política frequentemente trabalha em mandatos.

 

Quando a pergunta deixa de ser “funciona?”

A polarização acrescentou um problema ainda maior.

Muitas decisões técnicas passaram a ser analisadas pela identidade política de quem as propõe.

Uma medida pode ser defendida porque:

“É do meu governo.”

Ou rejeitada porque:

“É do governo adversário.”

E, nesse momento, a pergunta mais importante desaparece:

Funciona?

No lugar dela, surge outra:

“Quem propôs?”

Esse mecanismo é perigoso porque transforma políticas públicas estratégicas em símbolos de disputa eleitoral.

Uma política industrial pode ser abandonada.

Uma política educacional pode ser desmontada.

Um programa tecnológico pode mudar completamente de prioridade.

Não necessariamente porque deixou de funcionar.

Mas porque passou a ser associado ao governo anterior.

E nenhum país constrói soberania tecnológica recomeçando a cada eleição.

A esquerda pode errar. A direita também.

O debate sobre soberania frequentemente é apresentado como uma disputa entre dois modelos.

De um lado:

mais Estado.

Do outro:

mais mercado.

Mas a realidade das grandes potências é mais pragmática.

Uma política excessivamente estatizante pode produzir:

  • burocracia;
  • baixa competitividade;
  • aparelhamento;
  • empresas protegidas;
  • ineficiência.

Mas uma política que abandona completamente qualquer estratégia nacional pode produzir:

  • dependência externa;
  • desindustrialização;
  • perda de conhecimento;
  • vulnerabilidade em setores estratégicos.
  • A verdadeira pergunta não deveria ser:

Estado ou mercado?

Mas:

Qual Estado? Qual mercado? E qual estratégia nacional?

 

As grandes potências não são puramente ideológicas

Os Estados Unidos defendem o mercado.

Mas investem pesadamente em:

  • defesa;
  • tecnologia;
  • pesquisa;
  • inteligência artificial;
  • semicondutores.

A China possui forte presença estatal.

Mas também construiu algumas das maiores empresas industriais e tecnológicas do planeta.

A Europa possui sistemas sociais robustos.

Mas mantém políticas industriais, científicas e tecnológicas.

A Coreia do Sul oferece talvez uma das lições mais importantes.

Um país que, durante décadas, construiu capacidade industrial, tecnológica e educacional, transformando empresas nacionais em competidores globais.

Em 2026, por exemplo, o crescimento das exportações sul-coreanas foi fortemente impulsionado pela demanda mundial por semicondutores e tecnologias relacionadas à inteligência artificial. Entre janeiro e agosto, chips representaram 41% das exportações do país, segundo dados reportados pela Reuters.

A diferença não está simplesmente em ser de esquerda ou de direita.

Está na capacidade de identificar:

o que é estratégico para o país

e manter esse objetivo por décadas.

 

A verdadeira disputa do século XXI não é apenas territorial

No passado, poder significava:

  • território;
  • população;
  • exército;
  • recursos naturais.

Tudo isso continua importante.

Mas agora existe uma nova camada de poder.

Quem controla:

  • chips?
  • dados?
  • inteligência artificial?
  • satélites?
  • redes?
  • sistemas operacionais?
  • infraestrutura digital?
  • tecnologia médica?
  • propriedade intelectual?

Um país pode possuir território gigantesco.

Mas, se sua infraestrutura digital depende integralmente de tecnologias externas, existe uma vulnerabilidade.

Pode possuir grandes reservas minerais.

Mas, se exporta matéria-prima e importa produtos tecnológicos fabricados a partir dela, existe outra vulnerabilidade.

Pode formar excelentes engenheiros.

Mas, se eles precisam deixar o país para encontrar laboratórios, capital e oportunidades, existe mais uma vulnerabilidade.

 

Não falta inteligência ao Brasil

Talvez seja injusto dizer que o Brasil sofre simplesmente de “atraso tecnológico”.

Essa expressão é ampla demais.

O Brasil possui excelência em várias áreas.

Somos reconhecidos internacionalmente em:

  • agricultura tropical;
  • exploração de petróleo em águas profundas;
  • biocombustíveis;
  • aviação;
  • tecnologia financeira;
  • pagamentos digitais;
  • pesquisa agropecuária;
  • ciência médica;
  • software.

O problema brasileiro não é falta de inteligência.

Também não é falta de criatividade.

O problema parece estar na capacidade de transformar conhecimento em:

  • empresas globais;
  • patentes;
  • produtos;
  • indústrias;
  • propriedade intelectual;
  • escala.

Uma universidade pode produzir uma pesquisa extraordinária.

Mas é preciso responder:

Essa pesquisa virou tecnologia?

Essa tecnologia virou produto?

Esse produto virou empresa?

Essa empresa conseguiu crescer?

Se a resposta for não, uma parte importante do valor econômico produzido pelo conhecimento pode acabar sendo capturada em outro lugar.

 

Exportamos recursos. E nossas mentes?

Existe outra dimensão da soberania que raramente aparece nos discursos políticos.

A disputa global por talentos.

Hoje, cientistas, engenheiros, pesquisadores e profissionais de tecnologia disputam oportunidades em escala mundial.

Os países mais desenvolvidos oferecem:

  • laboratórios;
  • capital;
  • universidades integradas à indústria;
  • salários competitivos;
  • centros de pesquisa;
  • empresas globais;
  • financiamento para inovação.

O Brasil forma profissionais altamente qualificados.

Mas enfrenta o desafio de criar condições para que esses profissionais:

  • permaneçam;
  • pesquisem;
  • empreendam;
  • criem empresas;
  • transformem conhecimento em riqueza dentro do país.

O problema, portanto, não é simplesmente uma “fuga de cérebros”.

É também um problema de retenção e aproveitamento de capacidade intelectual.

Formar talento é importante.

Criar condições para que ele produza dentro do país é estratégico.

 

Talvez seja possível definir parte da situação brasileira como uma espécie de:

pseudo-soberania.

Não porque o Brasil não seja uma nação soberana.

Mas porque podemos confundir símbolos de independência com autonomia real.

Temos:

  • território.
  • bandeira.
  • instituições.
  • eleições.
  • recursos naturais.
  • capacidade agrícola.
  • petróleo.
  • minerais.

Mas ainda dependemos, em diferentes níveis, de:

  • fertilizantes;
  • semicondutores;
  • componentes eletrônicos;
  • medicamentos;
  • equipamentos científicos;
  • máquinas especializadas;
  • tecnologias industriais.

Isso não significa fracasso.

Significa que ainda existe uma distância entre:

possuir riqueza e dominar completamente a capacidade de transformar essa riqueza.

 

Soberania não significa isolamento

Talvez seja necessário esclarecer algo.

Nenhum país moderno produz absolutamente tudo.

Os Estados Unidos dependem de cadeias globais.

A China depende de mercados internacionais.

A Europa depende de matérias-primas externas.

A Coreia do Sul depende de comércio internacional.

Portanto:

soberania não significa viver isolado.

A verdadeira soberania talvez seja outra coisa:

ter capacidade de escolher.

Ter alternativas.

Não depender de um único fornecedor.

Não ficar paralisado quando uma cadeia internacional é interrompida.

Não perder a capacidade de proteger sua população em uma crise.

A verdadeira soberania é a liberdade de escolha diante da dependência.

 

Então o Brasil é soberano?

A resposta mais honesta talvez seja:

Sim.

O Brasil é politicamente soberano.

É uma potência agrícola.

É uma potência energética.

Possui enorme capacidade territorial e natural.

Tem ciência, universidades, empresas e profissionais altamente qualificados.

Mas também possui vulnerabilidades importantes.

Não é plenamente autônomo em áreas estratégicas.

Depende do exterior para fertilizantes.

Depende fortemente de tecnologias avançadas.

Importa componentes eletrônicos.

Importa medicamentos e insumos especializados.

Ainda busca construir maior capacidade na cadeia de semicondutores.

E enfrenta dificuldades históricas para transformar conhecimento em indústria e tecnologia de escala global.

 

O problema talvez não seja falta de riqueza

Depois de olhar para os recursos brasileiros, talvez a pergunta precise mudar.

O Brasil não parece ser um país pobre em:

  • território;
  • natureza;
  • energia;
  • inteligência;
  • população;
  • recursos.

Talvez nossa maior dificuldade seja outra.

  • Transformar abundância em estratégia.
  • Transformar recursos em indústria.
  • Transformar ciência em tecnologia.
  • Transformar tecnologia em empresas.
  • Transformar empresas em capacidade global.

E, principalmente:

transformar projetos de governo em projetos de país. (Este é o maior objetivo e desáfio).

 

Soberania ou Sabor Soberania?

A expressão pode parecer uma provocação.

E é.

Mas talvez seja uma provocação necessária.

Porque repetir a palavra soberania não cria soberania.

Discursos não produzem chips.

Slogans não produzem fertilizantes.

Polarização não cria laboratórios.

Bandeiras não substituem tecnologia.

E patriotismo, sozinho, não transforma matéria-prima em inovação.

A soberania real exige planejamento.

  • Exige investimento.
  • Exige educação.
  • Exige ciência.
  • Exige indústria.
  • Exige tecnologia.
  • Exige continuidade.

E talvez exija algo que o Brasil ainda tenha dificuldade de construir:

um acordo nacional sobre o futuro que sobreviva aos governos do presente.

 

A pergunta final

O Brasil tem quase tudo aquilo que uma grande potência poderia desejar.

  • Terra.
  • Água.
  • Energia.
  • Alimentos.
  • Minérios.
  • Biodiversidade.
  • População.
  • Talento.

Mas possuir tudo isso não garante, por si só, independência.

A pergunta que permanece é simples — e talvez seja a mais importante de todas:

O Brasil quer apenas ser rico em recursos?

Ou quer ser capaz de controlar o conhecimento, a tecnologia e as cadeias que definirão o poder no século XXI?

Porque, no fim, soberania não é apenas possuir aquilo que o mundo deseja comprar.

É possuir a capacidade de decidir o que fazer com aquilo que se tem.

E talvez essa seja a diferença entre soberania e apenas o sabor da soberania.


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Fontes consultadas: Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC/Comex Stat); Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA); Ministério de Minas e Energia; Tesouro Nacional; Plano Nacional de Fertilizantes; Programa Brasil Semicon; dados oficiais de comércio exterior e referências internacionais sobre comércio e indústria.

Esta matéria foi produzida pela redação do portal, com apuração e tratamento editorial próprios.

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Sobre o autor

Por Ivan Marra

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