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Os anticorpos que atravessam a placenta: como vacina da mãe protege o bebê antes mesmo do parto

Por Ivan Marra
Atualizado em 14/09/2026 às 19:25 schedule 4 min de leitura visibility 27 visualizações share 0 compartilhamentos (0)
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Todo bebê nasce carregando parte da história imunológica da mãe. Anticorpos que o corpo dela acumulou ao longo da vida — de infecções que teve e de vacinas que tomou — atravessam a placenta e chegam ao feto ainda dentro do útero. Quando a gestante é vacinada, esse mecanismo é direcionado: ela protege a si mesma e fabrica, sob encomenda, defesas específicas contra ameaças que o bebê pode encontrar logo após o parto.

Nem todo anticorpo faz esse caminho. A imunoglobulina-M (IgM) é a resposta mais rápida do organismo, mas é grande demais para passar pela placenta. Já a imunoglobulina-G (IgG), menor e mais precisa, é a única capaz de atravessar essa barreira. A passagem não é acidental: um receptor chamado FcRn, situado numa camada finíssima de células que reveste a placenta, reconhece especificamente a IgG e a transporta de propósito para a circulação fetal. A IgA, que age nas portas de entrada do corpo, como boca, intestino e vias respiratórias, também não passa pela placenta — chega ao bebê depois do parto, pelo leite materno.

Segundo a ginecologista e obstetra Maria Carolina Pessoa Valença Rygaard, membro da Comissão Nacional Especializada em Vacinas da Febrasgo, a transferência de anticorpos aumenta conforme a gestação avança e só acelera de verdade na segunda metade, a ponto de, pouco antes do parto, o bebê carregar mais anticorpos do que a própria mãe. É esse ritmo que define a janela de cada vacina, para evitar dois erros: vacinar cedo demais, antes de o corpo produzir anticorpos suficientes, ou tarde demais, sem tempo hábil para transferi-los.

No Brasil, a dTpa, que protege contra difteria, tétano e coqueluche, é recomendada a partir da 20ª semana. A vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR), incorporada ao SUS em dezembro de 2025 e antes disponível apenas na rede privada, passou a ser oferecida a partir da 28ª semana. De acordo com Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), os primeiros estudos do imunizante começaram na 24ª semana, mas alguns países preferiram esperar até a 32ª por cautela quanto ao risco de prematuridade; o uso em vida real afastou a preocupação, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a recomendar o início a partir da 28ª semana.

Em 2024, o coeficiente de incidência da coqueluche no Brasil atingiu o maior patamar da série histórica desde 1990. Naquele ano, 29 bebês com menos de 1 ano morreram da doença — 24 deles filhos de mães não vacinadas, segundo Kfouri. A bronquiolite grave, causada majoritariamente pelo VSR, matou 537 crianças com menos de 1 ano no país em 2024. A adesão à nova vacina surpreendeu: conforme Kfouri, a cobertura já se aproxima de 85% e tem ajudado a elevar também as coberturas de gripe e coqueluche. O desafio que persiste está na vacina contra a covid-19, cuja adesão segue mais baixa.

Há situações em que o mecanismo não funciona por completo. Em uma minoria de gestantes, geralmente com alguma doença autoimune de base, como lúpus, o excesso de anticorpos pode saturar o receptor que faz a transferência, reduzindo a passagem de defesas que beneficiariam o bebê. Bebês prematuros, por sua vez, têm menos tempo de transferência placentária e tendem a nascer com menor quantidade de anticorpos maternos, o que soma vulnerabilidade imunológica à imaturidade do nascimento antes dos nove meses.

Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.

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