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“O Brasil é pardo”: Mary Del Priore vira alvo de ataques ao contestar tese identitária

Por Ivan Marra
Atualizado em 20/09/2026 às 15:20 schedule 3 min de leitura visibility 42 visualizações share 0 compartilhamentos (0)
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Antes mesmo de chegar às livrarias, o livro História das mestiçagens no Brasil começou a receber ataques nas redes sociais. Segundo a coorganizadora da obra, Mary Del Priore, doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP), as críticas surgiram quando ela e o coorganizador Gian Melo, doutor em história do Norte e Nordeste pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), começaram a divulgar o lançamento. “As ameaças surgiram cinco dias antes de o livro chegar às livrarias. As pessoas não tiveram nem tempo de ler a obra”, relata a historiadora.

De acordo com Del Priore, os ataques continuam e atingem também autores de artigos publicados na coletânea. Entre insultos e palavrões, havia mensagens sugerindo que os envolvidos com a obra seriam atacados durante a Bienal do Livro, realizada entre 4 e 13 de setembro em São Paulo. As ameaças levaram a editora a contratar uma equipe de segurança. Em nota, a Fundação Editora da Unesp (FEU) informou que pediu a presença de segurança extra durante a sessão de autógrafos na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo como medida de precaução. Nenhum incidente foi registrado, mas os ataques seguem acontecendo e foram os mais agressivos já registrados na carreira da historiadora, que publica livros desde os anos 1990.

Para a autora, as críticas partem de um grupo radical que sustenta que a mestiçagem só pode ser considerada como estupro. “A mestiçagem nasce do encontro de pessoas pobres, incluindo portugueses, franceses e ingleses, que chegaram ao Brasil desde o século XVI e foram se unindo a escravos”, afirma. “O Brasil é o país mais mestiço do mundo. Ainda assim, esse tema é silenciado por motivações ideológicas.” No primeiro capítulo da obra, ela escreve: “O Brasil é pardo. Nem preto nem branco, mas pardo.”

Com 472 páginas e resultado de dois anos de trabalho, o livro reúne 17 capítulos, entre eles “Dinâmicas amazônicas de mestiçagem”, “O clero mestiço nos trópicos” e “Culinária e mestiçagem”. A primeira edição foi vendida em três dias. Os organizadores relatam dificuldades para reunir autores dispostos a contribuir. “O constrangimento de muitos professores em falar do assunto é grande, porque o ambiente acadêmico, quando se fala em mestiçagem, é tóxico”, diz Del Priore, que afirma ter recebido mensagens de apoio, muitas delas privadas, de docentes que dizem temer se manifestar em público.

A historiadora avalia que desconsiderar o processo de mestiçagem é ignorar processos formadores da população brasileira, e cita a caboclização no Norte e no Nordeste, a mameluquização em São Paulo, no Paraná e no Mato Grosso e a mestiçagem com africanos na Bahia, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Ela também afirma que a pauta não reduz análises sobre o racismo. Del Priore enxerga semelhança entre os ataques que vem sofrendo e o espancamento de um estudante da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) no final de agosto. “Quando historiadores precisam de proteção para lançar um livro e um estudante precisa de proteção para expressar uma ideia, não são apenas eles que estão ameaçados. É a própria História que começa a sangrar.”

Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.

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