Da leitura profunda à rolagem infinita: como perdemos a capacidade de atenção
O avanço das telas e dos dispositivos digitais tem colocado em xeque a chamada leitura profunda, aquela capaz de sustentar atenção prolongada, compreensão e retenção de informações. A reflexão é do professor e articulista Matthew J. Franck, em artigo publicado no site da Gazeta do Povo, no qual relata suas próprias experiências e cita pesquisadores que estudam os efeitos da vida digital sobre o cérebro leitor.
Franck conta que leu recentemente um artigo da revista The Atlantic sobre um aparelho chinês de leitura digital pouco maior que um cartão de crédito. O dispositivo é propositalmente simples — sem gráficos, tela sensível ao toque, cores ou luz de fundo — e se fixa magneticamente à parte traseira do celular, permitindo que o usuário vire o telefone e leia apenas texto. O autor se diz cético: embora apoie qualquer estratégia que leve as pessoas a ler mais livros, questiona o quanto alguém realmente retém ao ler em um aparelho tão reduzido.
Ele lembra que já abordou o tema em anos anteriores, comparando livros digitais e impressos. Durante a leitura de uma obra de história em PDF no tablet, percebeu que se tratava de um trabalho denso e encomendou o exemplar impresso. Depois de transferir as anotações do arquivo digital para o papel, seguiu lendo apenas a versão física, de forma mais rápida e profunda.
O artigo cita a neurocientista cognitiva Maryanne Wolf, autora de Reader, Come Home: The Reading Brain in a Digital World, lançado em 2018. Segundo Franck, Wolf não condena totalmente a leitura em telas, mas é cautelosa. Ela relata um estudo no qual jovens leitores de contos retiveram melhor o enredo quando leram no papel, e não em um Kindle. A "dimensão concreta e espacial" do livro ajudaria nesse processo. A leitura constante em telas, afirma, afeta até mesmo a forma como os olhos percorrem a página e o cérebro absorve informações.
Wolf descreve o que chama de "diminuição da capacidade de atenção, levada além dos limites cognitivos por uma avalanche de distrações e informações que jamais se transformarão em conhecimento". O texto também menciona o jornalista britânico James Marriott, autor de The New Dark Ages: The Death of Reading and the Dawn of the Post-Literate Society, lançado no Reino Unido. Para Marriott, à medida que a leitura desaparece, o futuro pós-literário pode se parecer com o passado pré-literário: "místico, tribal e autocrático".
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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