Chefes de empresas de tecnologia pedem desaceleração da IA — mas o que a China pensa?
Líderes de algumas das principais empresas de tecnologia dos Estados Unidos têm defendido publicamente que o desenvolvimento da inteligência artificial (IA) seja desacelerado, citando riscos que a tecnologia pode representar. Dario Amodei, presidente-executivo da Anthropic, é um dos que defendem esse freio. Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk, dono da rede social X e do assistente de IA Grok, afirmaram concordar com ele. Outros nomes do Vale do Silício chegaram a dizer que a tecnologia poderia, um dia, ameaçar a sobrevivência da humanidade.
Essas tentativas de enfrentar os riscos, no entanto, esbarram na rivalidade entre China e Estados Unidos, as duas principais potências em IA. Como concorrentes estratégicos, os dois países costumam avaliar os avanços da tecnologia sob a ótica da segurança nacional e das vantagens econômicas, o que levanta dúvidas sobre a possibilidade de uma cooperação efetiva. "Se a comunidade internacional espera que o diálogo entre EUA e China sobre essas questões resulte em um acordo vinculante, ficará decepcionada", afirmou Ilaria Carrozza, pesquisadora sênior do Instituto de Pesquisa para a Paz de Oslo (Prio).
A China tem grandes planos para a IA e prevê um futuro em que a tecnologia esteja presente em todos os setores da sociedade e da economia, da agricultura e da saúde às Forças Armadas. O governo chinês, porém, também alerta há anos para os riscos da tecnologia. Já em 2017, afirmou que a IA poderia ameaçar a privacidade, a estabilidade social e as relações internacionais. Desde então, passou a exigir que conteúdos gerados por IA nas redes sociais sejam identificados como tal, proibiu parceiros virtuais de IA para menores de idade e vetou o uso de deepfakes para disseminar desinformação.
Ao tratar das preocupações de que a IA possa sair do controle, o presidente chinês, Xi Jinping, afirmou em julho que a tecnologia "deve permanecer sempre sob controle humano". A declaração foi feita durante a Organização Mundial de Cooperação em IA, iniciativa global criada pela China para promover o diálogo internacional sobre a governança da IA. Em suas mais recentes diretrizes de segurança para IA, publicadas em setembro, a Administração do Ciberespaço da China afirmou que são necessárias políticas preventivas para evitar que a IA ameace a "sobrevivência e o desenvolvimento da humanidade".
Embora autoridades chinesas reconheçam o risco de a IA escapar do controle humano, a possibilidade de a tecnologia representar uma ameaça existencial à humanidade ocupa um espaço muito menor no debate na China do que nos EUA. "As discussões na China tendem a se concentrar mais na possibilidade de controlar a tecnologia, no uso indevido e nas consequências sociais, enquanto, nos EUA, o debate passou a ser dominado por cenários hipotéticos de perda de controle ou extinção", disse Shaoshan Liu, diretor do Instituto de Inteligência Artificial e Robótica para a Sociedade de Shenzhen.
Além das prioridades internas, há questões geopolíticas em jogo. O presidente dos EUA, Donald Trump, descreveu o desenvolvimento da IA como uma disputa decisiva com a China: "quem vencer na IA, vence". Em um ensaio publicado em setembro em uma revista estatal, Chen Yixin, principal autoridade de inteligência da China, classificou o desenvolvimento da IA como uma "nova arena de rivalidade estratégica entre as grandes potências". Ainda assim, há expectativa de que uma cúpula entre Xi Jinping e Trump, prevista para ocorrer em Washington neste mês, possa levar a algum entendimento, com a IA entre os principais temas da agenda, segundo a agência Reuters.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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