André Mendonça: como um servidor discreto virou o ministro que pode vencer Moraes
O ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça construiu uma trajetória que começou longe dos holofotes do poder em Brasília. Filho de um bancário do extinto Banespa e de uma dona de casa, nasceu em Santos e viveu em diferentes cidades paulistas — como São Vicente, Miracatu, Itanhaém, Pederneiras e São Paulo — antes de chegar a Bauru, onde se formou em Direito pela Instituição Toledo de Ensino, em 1993. Ainda durante o curso, aos 19 anos, perdeu o pai, a quem descreve como seu "orgulho, exemplo e referencial de vida".
Antes de ingressar na carreira jurídica, Mendonça pretendia seguir o caminho religioso. Aos 16 anos, dizia que queria ir para o seminário em vez de fazer faculdade. O pai pediu que concluísse os estudos primeiro; depois, foi a mãe quem o convenceu a adiar o plano religioso até conquistar independência financeira. Recém-formado, trabalhou em um escritório montado num porão em Bauru. Depois, prestou concurso para a Petrobras e, em seguida, para a Advocacia-Geral da União, onde pediu lotação em Londrina (PR) para poder estudar na Faculdade Teológica Sul Americana.
Na AGU, ganhou destaque pelo perfil técnico. Em 2005, foi convidado para uma missão temporária na Corregedoria-Geral do órgão, em Brasília, e acabou efetivado como subcorregedor. Seu nome chegou a Dias Toffoli, então advogado-geral da União, que em 2008 o convidou para dirigir o recém-criado Departamento de Patrimônio Público e Probidade Administrativa. À frente da área, comandou a restituição de R$ 169 milhões desviados das obras do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, trabalho que lhe rendeu o Prêmio Innovare em 2011.
A aproximação com Jair Bolsonaro ocorreu no fim de 2018, durante a transição de governo, quando o então assessor Jorge Oliveira apresentou seu currículo ao presidente eleito. Bolsonaro o anunciou para chefiar a AGU e o apelidou de "Mendonção". Em 2020, Mendonça substituiu Sergio Moro no Ministério da Justiça, cargo que ocupou até março de 2021, quando voltou à AGU. Em julho daquele ano, foi indicado por Bolsonaro à vaga de Marco Aurélio Mello no STF, mas enfrentou resistência no Senado e esperou quase cinco meses pela sabatina. Ouvido pela Comissão de Constituição e Justiça em 1º de dezembro, respondeu a perguntas por mais de oito horas, defendeu o Estado laico e teve o nome aprovado por 18 votos a 9 na CCJ e por 47 a 32 no plenário. Tomou posse ainda em dezembro de 2021.
Desde então, ficou conhecido pela participação em julgamentos sobre liberdade de expressão, direitos individuais e os limites de atuação do próprio Supremo, incluindo os primeiros embates com Alexandre de Moraes. Sua trajetória também registra controvérsias: o Instituto Iter, criado por ele em 2023 e administrado por sua mulher, Janey, fechou dezenas de contratos com órgãos públicos sem licitação, num total de R$ 10,7 milhões, segundo levantamento do jornal Folha de S.Paulo. No início deste mês, em meio aos questionamentos, Mendonça e Janey deixaram a entidade e doaram suas cotas — decisão que, segundo o ministro, buscava evitar "ruídos". O instituto também aparece no caso envolvendo o Banco Master: em março de 2025, Daniel Vorcaro esteve na sede do Iter, em São Paulo, para uma reunião com Mendonça.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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