Por que governo Lula vê 'cavalo de Troia' em ação coordenada dos EUA e mais 14 países contra facções como PCC e CV
Um auxiliar próximo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que os Estados Unidos estão usando o combate ao crime organizado no continente americano como uma espécie de "cavalo de Troia" para ampliar sua influência na região. A análise foi feita à BBC News Brasil em caráter reservado.
Na metáfora usada pelo auxiliar, o combate ao narcotráfico seria o "cavalo" de madeira grego, e os "soldados" dentro dele seriam os interesses norte-americanos que os países da região estariam colocando "para dentro de casa" ao aderirem à política dos EUA para o continente. A avaliação toma como base o comunicado conjunto divulgado na terça-feira (22/9) por 15 países liderados pelos Estados Unidos, grupo intitulado Escudo das Américas, que se compromete a adotar sanções contra 24 facções criminosas, entre elas o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho.
Apesar de o foco do texto ser medidas conjuntas contra grupos criminosos, o documento também menciona infraestrutura digital, cooperação econômica e acesso a minerais críticos. Segundo o auxiliar, os EUA usam o combate às facções como pretexto para avançar agendas mais amplas. Na avaliação dele, a adesão dos países à postura norte-americana é perigosa e cria terreno para que qualquer tema de interesse dos EUA na região seja tratado sob a lógica de segurança nacional, o que, em última instância, poderia justificar ações militares.
O comunicado afirma que os signatários vão adotar medidas como congelamento de ativos de organizações criminosas ou de suas lideranças, controle migratório contra pessoas supostamente vinculadas e processamento de quem oferece suporte financeiro ou logístico às facções. O grupo também anunciou que fará consulta à Organização dos Estados Americanos (OEA), da qual o Brasil é membro, para avaliar a possível reativação do Tratado Interamericano de Assistência Mútua (Tiar), criado em 1948 durante a Guerra Fria.
O Escudo das Américas reúne 14 países do continente, em sua maioria governados por líderes de centro-direita e de direita alinhados à política de Donald Trump para a região. O Brasil não faz parte do grupo. Diplomatas brasileiros ouvidos pela BBC News Brasil disseram que só tomaram conhecimento do documento após sua divulgação e não foram consultados ou informados por países parceiros. De acordo com o auxiliar presidencial, o governo ainda analisa as implicações práticas do comunicado e da possível consulta à OEA, e uma das opções seria votar contra as propostas do grupo, decisão ainda não tomada.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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