Impacto financeiro de bets no SUS chega a R$ 30,6 bilhões por ano
O impacto financeiro dos danos à saúde provocados pelas apostas online no Sistema Único de Saúde (SUS) chega a R$ 30,6 bilhões por ano. O dado consta de estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS). Na conta, entram despesas com tratamentos de depressão e ansiedade, além dos impactos causados pelas mortes por suicídio.
Apenas 1% do valor arrecadado das operadoras de apostas é destinado ao Ministério da Saúde para minimizar esses danos. Nos últimos cinco anos, foi registrado aumento de 140% na busca por atendimento no SUS por causa da dependência de apostas online e jogos de azar.
De acordo com o diretor de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati, o crescimento foi registrado em toda a Rede de Atenção Psicossocial. Segundo ele, com foco nessa procura, foi lançado o serviço de teleatendimento voltado para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas. "Desde fevereiro deste ano, quando nós criamos uma porta de entrada para atendimentos a jogos e apostas de forma eletrônica, nós tivemos uma procura de 20 mil pessoas que se cadastraram após fazerem um teste", afirmou.
Diante da alta procura, a capacidade foi ampliada recentemente de 600 para até 100 mil teleatendimentos mensais, em parceria com a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS). O diretor diz que outro indicativo do crescimento do problema vem da plataforma de autoexclusão, lançada pelo Ministério da Fazenda: foram bloqueados mais de 5 milhões de CPFs em sites de apostas online autorizados a operar pelo governo federal. Além de atingir atendidos pelo Bolsa Família e pelo Benefício de Prestação Continuada (BPC) e pessoas em programas de renegociação de dívidas, mais de 1 milhão de usuários pediram autoexclusão — nesse último caso, quase metade alegou problemas de saúde mental relacionados a apostas.
Há cerca de dois meses sem apostar, o vendedor Gustavo Pereira, de 24 anos, usou a plataforma de autoexclusão para evitar novas recaídas. Morador de Lages, em Santa Catarina, ele começou a apostar online aos 18 anos e, em seis anos, chegou a perder meio milhão de reais por causa do vício. "Tive várias recaídas nesse processo, até chegar o momento da autoexclusão da plataforma. Pode-se dizer que essa ferramenta salvou minha vida", lembra. Ele começou a vender café nas ruas da cidade para recomeçar a vida.
O apoio familiar também é apontado como fundamental. A jogadora compulsiva Carla Xavier*, de 41 anos, frequentadora do grupo Jogadores Anônimos, está há mais de um ano longe do vício. "Quando a gente tem uma família que apoia, que entende o que a gente está passando, tudo fica mais fácil", diz. Para a psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, a família deve agir assim que perceber o problema, atenta a sinais como isolamento, mudanças de humor e gastos mais elevados. O SUS oferece teleatendimento psicológico pelo portal Meu SUS Digital, atendimento presencial em UBSs e CAPs, além de grupos de apoio como Jogadores Anônimos e o CVV, pelo número 188.
*Sobrenome omitido a pedido dos entrevistados.
Esta matéria foi publicada primeiro em Saúde · Agência Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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