'Direita terá que decidir se desembarca do bolsonarismo', diz pesquisador de Harvard
O historiador Sidney Chalhoub, pesquisador de Harvard e professor do Departamento de História da Unicamp, avalia que a saída de Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil rumo aos Estados Unidos, três dias após perder a eleição presidencial e questionar a legitimidade do resultado, reacende um dilema na direita brasileira. Segundo ele, esse campo político terá de decidir se continua aliado ao bolsonarismo ou se afasta de um movimento que acumula duas derrotas consecutivas na disputa pelo Planalto e mantém relação conflituosa com as instituições democráticas.
Em entrevista à BBC News Brasil, Chalhoub afirma que romper com o bolsonarismo é condição para que a direita volte a ter chances de vencer uma eleição presidencial. "A direita democrática vai ter que decidir se aliar-se à extrema direita é bom negócio. Perderam duas eleições com essa aliança", diz. Para o historiador, sem se desvencilhar do que chama de golpismo, esse campo continuará a perder.
Flávio terminou o primeiro turno à frente de Lula, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do petista. No segundo turno, porém, foi derrotado, e Lula conquistou 4,4 milhões de votos a mais que o adversário. Logo após o resultado, o senador não reconheceu a vitória de Lula e afirmou que pediria a anulação das eleições. No dia seguinte, gravou um vídeo em que disse que pediria a cassação do resultado e afirmou que nunca havia pensado em deixar o país. Cerca de 24 horas depois, saiu do Brasil com a família rumo aos Estados Unidos. A viagem ocorreu depois de o senador ser intimado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a entregar seus passaportes, em pedido feito dentro do inquérito que investiga suposta lavagem de dinheiro de Flávio em parceria com seu amigo advogado Willer Tomaz.
Para Chalhoub, a sequência segue um padrão observado há anos na direita radical brasileira. "A alegação de fraude na eleição auxilia a narrativa de perseguição política, que justifica o ato seguinte, que é a fuga para evitar responder por crimes pelos quais líderes da direita são investigados", afirma, citando os ex-deputados Alexandre Ramagem, Eduardo Bolsonaro e Carla Zambelli, que também deixaram o Brasil. Segundo ele, a derrota de Flávio e a ida aos EUA colocam em questão o futuro do bolsonarismo e sua capacidade de continuar se impondo como principal força da direita, como ocorreu nos últimos três pleitos. O historiador avalia que o movimento dificilmente voltará a ter a mesma força eleitoral, mas ressalva que isso não significa perda de relevância: o PL elegeu a maior bancada na Câmara e terá a maior representação no Senado.
Chalhoub também considera prematuro concluir que o ciclo de reação conservadora iniciado na última década, sobretudo a partir da eleição de 2014 e do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, tenha chegado ao fim. Ele cita precedentes na história brasileira, como as reações a avanços de direitos após a abolição da escravidão e no período que antecedeu o golpe militar de 1964. "É difícil prever o fôlego dessa reação conservadora em curso. Não estou dizendo que ela acabou agora com a segunda derrota eleitoral. Até pela dificuldade de derrotá-la, você vê como ela está mais viva do que nunca", diz.
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