Apostas em bets avançam entre jovens e ampliam risco de dependência
O avanço das apostas online entre jovens tem levado cada vez mais pessoas a buscar ajuda para largar a dependência de bets. A avaliação é de Luiz Carlos*, integrante da irmandade Jogadores Anônimos, grupo de apoio a pessoas com problemas de jogo. Segundo ele, já é comum encontrar adolescentes na faixa dos 14 anos procurando auxílio para conter o vício.
"Hoje quem chega à irmandade é muito jovem. Já chegou até de 14 anos acompanhado pelo psiquiatra. Mas chegam jovens de 15, 16, 19, 20 anos, até 30, 35 anos", relata. Luiz Carlos, de 71 anos, lembra que, quando começou a jogar, na década de 1980, o vício eram as máquinas de videopôquer e não existia celular. "Graças a Deus eu não jogo hoje, porque, se eu jogasse, estava perdido. Na minha época, a gente tinha que sair de casa para jogar. Hoje não precisa mais, você carrega um cassino dentro do seu bolso", afirma.
O jovem Gustavo Pereira, de 24 anos, é um dos que enfrentaram graves problemas financeiros e de saúde mental por conta da compulsão. Ele começou a apostar aos 18 anos e, em seis anos, chegou a perder meio milhão de reais. "O dinheiro começou a perder valor para mim, eu comecei a perder a dimensão do dinheiro. Na minha conta não tinha todo aquele valor, mas lá na bet tinha, e o vício faz isso, te enche de ganância", diz. Há cerca de dois meses sem apostar, ele tenta recomeçar a vida vendendo café nas ruas de Lages (SC) e mantém um perfil no Instagram onde publica conteúdos sobre como supera o vício e evita recaídas.
Especialistas afirmam que a facilidade de acesso às plataformas pelo celular amplia a exposição dos jovens. Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) mostram que uma em cada cinco pessoas no mundo começa a apostar em jogos online até os 11 anos, número que chega a 78% a partir dos 12 anos. Pesquisa deste ano feita no Brasil e divulgada pela Frente Parlamentar Mista de Educação aponta que, entre 1.912 estudantes dos ensinos médio e fundamental, 9,5% fizeram a primeira aposta aos 11 anos, e quase metade dos entrevistados no 3º ano do ensino médio já apostou.
A psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que o jovem é mais vulnerável porque o cérebro ainda está em construção: enquanto o núcleo ligado ao prazer e à dopamina funciona em ritmo acelerado, as regiões que controlam impulsos e avaliam riscos só amadurecem aos 20 e poucos anos. "O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ele, em contrapartida, ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte", diz. Relatório do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) concluiu que pelo menos 24 milhões de brasileiros apostaram em bets em 2024, sendo que quase metade ficou endividada.
Esta matéria foi publicada primeiro em Saúde · Agência Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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