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Por que os Estados da antiga Alemanha comunista passaram a ser o bastião da extrema direita no país

Por Ivan Marra
Atualizado em 22/09/2026 às 22:05 schedule 4 min de leitura visibility 35 visualizações share 0 compartilhamentos (0)
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O partido Alternativa para a Alemanha (AfD), classificado pelos serviços de inteligência do país como uma formação de extrema direita, voltou a vencer eleições regionais no leste alemão. Duas semanas depois de conquistar 44% dos votos na Saxônia-Anhalt, a legenda obteve 38% dos sufrágios em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, em 20 de setembro. No mesmo pleito, a União Democrata-Cristã (CDU), partido do chanceler Friedrich Merz, recebeu apenas 4,9% dos votos e ficou fora do parlamento regional pela primeira vez em sua história. Em Berlim, o pós-comunista Die Linke foi o mais votado, com 25%, seguido pela CDU (19%) e pela AfD (16%).

Os resultados reforçam uma tendência observada nos últimos anos: o leste da Alemanha se consolidou como um dos principais bastiões eleitorais da AfD, formação que os serviços secretos alemães apontam como "uma ameaça para a democracia". O avanço ocorre justamente nos territórios da antiga República Democrática Alemã (RDA, 1949-1990), um Estado comunista que se declarava antifascista.

Entre os fatores apontados por especialistas para explicar o fenômeno está o custo social e econômico da reunificação. "Muitos alemães do leste se percebem como 'cidadãos de segunda classe'", afirmou à BBC News Mundo o politólogo Manès Weisskircher, da Universidade Técnica de Dresden. Na mesma linha, o politólogo Rolf Frankenberger, diretor de pesquisa do Instituto de Estudo do Extremismo de Direita da Universidade da Turíngia, diz que a reunificação "produziu vencedores e perdedores" e que, segundo muitos alemães orientais, eles foram os perdedores. Ele acrescenta que conquistas da RDA em áreas como igualdade de gênero, cuidado com as crianças e educação foram ignoradas, o que alimentou um ceticismo em relação ao Estado.

Os dados oficiais respaldam essas avaliações. Um trabalhador dos cinco Estados do leste ganha, em média, 17% menos que seus pares ocidentais, segundo o Escritório Federal de Estatísticas. A diferença salarial é uma das principais razões para a queda de 16% da população da região nos últimos 35 anos — a Saxônia-Anhalt registrou a maior redução, de 26%. Das 12.354 empresas públicas da extinta Alemanha Oriental, mais de um terço foi fechado e as restantes foram privatizadas, segundo a Treuhandanstalt, agência que geriu o aparato empresarial herdado da era comunista. O desemprego chegou a 25% e hoje está abaixo de 10%.

Outro argumento citado por especialistas é a suposta inclinação dos alemães orientais a tendências autoritárias. O professor Magnus Brechtken, subdiretor do Instituto de História Contemporânea de Munique, menciona um "anseio tradicional por soluções provenientes do Estado e da autoridade", com base nas quatro décadas de comunismo e no histórico anterior do nazismo. Claire Burchett, do King's College de Londres, lembra que a Saxônia-Anhalt e o que hoje é Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental foram bastiões nazistas na década de 1930, e que a "desnazificação" na RDA foi muito mais curta que na Alemanha Ocidental. Já o politólogo Benjamin Höhne, da Universidade de Chemnitz, destaca que a RDA era um Estado secularizado, sem sindicatos plurais nem organizações da sociedade civil, o que teria deixado espaço para atores de extrema direita.

Nem todos os especialistas, porém, veem o passado como causa direta. "A história da Alemanha Oriental certamente é convulsa, mas é preciso não exagerar sua importância para compreender o sucesso eleitoral da AfD", afirmou Weisskircher, para quem o avanço da extrema direita no leste alemão não é uma exceção no contexto europeu.

Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.

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