A escritora brasileira que virou sensação com romance sobre os neandertais: 'Já tive empregos horríveis, estar no meu quarto escrevendo é libertador'
O romance Os Imortais, da escritora brasiliense Paulliny Tort, acaba de ganhar o Prêmio Literário Biblioteca Nacional e vai ser adaptado para as telas pelo produtor cinematográfico Rodrigo Teixeira, do vencedor do Oscar Ainda Estou Aqui. Lançado em março pela Fósforo Editora, o livro já está na sexta reimpressão e foi um dos mais vendidos na última edição da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty. Traduções para o inglês, espanhol, francês e polonês estão previstas para o mercado internacional.
A obra se passa há cerca de 50 mil anos e narra os dramas de sobrevivência e as relações dentro de um grupo de neandertais, incluindo o encontro com os homo sapiens. O texto emprega palavras incomuns, como "sanga" (um tipo de córrego), "epícea" (espécie de árvore) e "auroque" (um antepassado extinto do boi). Os neandertais, embora tenham uma imagem popular como extremamente primitivos, são considerados próximos dos homo sapiens em termos evolutivos e de inteligência, e as duas espécies chegaram a dividir o mesmo espaço por alguns milênios, numa convivência muitas vezes tensa e violenta.
Paulliny Tort tem 47 anos e demorou para se tornar escritora em tempo integral. "Fui uma autora relativamente tardia. Comecei a publicar aos 37 anos, porque, primeiro, tinha uma autocrítica um pouco paralisante", conta. Antes disso, trabalhou como secretária e recepcionista, fez serviços eventuais de faxina e vendeu pão integral e samosa para se sustentar. Formada em jornalismo, atuou na área por 14 anos e também cursou, sem chegar a completar, Engenharia Florestal, Oceanografia e Ciências Biológicas, reflexo de seu interesse por estudar a natureza e o meio ambiente. Seus dois livros anteriores foram o romance Allegro Ma Non Troppo e a reunião de contos Erva Brava.
Sobre o processo de escrita, a autora afirma que a criação de ficção funciona como sintonizar um rádio. "Você entra num fluxo que não é esse aqui, do mundano e do ordinário", diz. Para Os Imortais, ela chegou a escrever sob jejum para tentar entender as privações do clã neandertal: "Te dá um estado de consciência muito específico". A escritora também rebate a ideia de que a escrita precisa ser sofrida. "Acho que autores que defendem a escrita como lugar de penúria, de sofrimento, são autores que, em geral, tiveram durante a vida uma situação mais ou menos confortável. Eu já tive empregos horríveis em que eu ganhava mal, era maltratada. Para mim, hoje, estar dentro do meu quarto escrevendo é uma delícia, não tem um chefe me mandando fazer assim ou assado. É totalmente libertador."
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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