Por que o Brasil continuou um só enquanto a América espanhola se dividiu em vários países?
Há 204 anos, em 7 de setembro de 1822, o Brasil declarava sua independência de Portugal. A data, porém, levanta uma questão que ainda intriga historiadores: por que a América portuguesa se tornou um único país enquanto a América espanhola se fragmentou em diversas nações? Não há uma resposta única, mas um conjunto de fatores históricos, políticos e geográficos explica o desfecho distinto das duas colonizações.
Um dos principais motivos foi a fuga da família real portuguesa para o Brasil em 1808, diante da invasão de Portugal por Napoleão Bonaparte. O príncipe regente João transferiu para o Rio de Janeiro não apenas a corte, mas toda a burocracia do governo, arquivos e cerca de 15 mil pessoas. A presença do rei em território brasileiro deu legitimidade à colônia e serviu como um polo de unidade. "O rei era um herdeiro legítimo do poder. Temos dificuldade de entender a importância disso hoje, mas naquela época a figura de Dom João 6º como monarca tinha muita força", afirma o historiador americano Richard Graham, professor emérito da Universidade do Texas.
Outro fator relevante foi a diferença na administração das colônias. Enquanto a América espanhola era dividida em quatro grandes vice-reinados — Nova Espanha, Peru, Rio da Prata e Nova Granada — com poucos vínculos entre si, a colônia portuguesa tinha administração centralizada. Apesar das dimensões continentais, a população brasileira se concentrava no litoral, o que reduzia as distâncias entre os centros políticos e facilitava o controle pela Coroa. "A administração espanhola se deu em torno de duas sub-metrópoles: México e Peru. Isso não aconteceu no Brasil, onde a administração era muito mais centralizada", explica o historiador mexicano Alfredo Ávila Rueda, da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM).
A formação das elites também contribuiu para o resultado. Segundo o historiador brasileiro José Murilo de Carvalho, Portugal não permitiu a criação de universidades em sua colônia, o que obrigava os brasileiros que buscavam formação superior a estudar em Coimbra. Entre 1772 e 1872, 1.242 estudantes brasileiros passaram pela universidade portuguesa. Ao retornar, ocupavam cargos na administração colonial e compartilhavam uma visão comum, o que favoreceu a unidade. Na América espanhola, ao contrário, havia pelo menos 23 universidades locais, e cerca de 150 mil estudantes se formaram no mesmo período. Para Carvalho, os movimentos de independência na América espanhola surgiram justamente nos locais onde existiam universidades, que acabaram dando origem a países diferentes. Ávila Rueda, porém, contesta essa tese, argumentando que essas instituições eram majoritariamente reacionárias e aliadas à Coroa espanhola, e atribui à livre circulação de impressos — proibida na América portuguesa até 1808 — um papel mais importante na construção de identidades regionais.
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