Por que Maria, mãe de Jesus, é tratada de forma diferente por católicos e evangélicos
A figura de Maria, mãe de Jesus, ocupa lugares distintos na fé católica e nas denominações protestantes. Para os católicos, ela é Nossa Senhora, a maior das santas e a grande intermediadora entre a humanidade e Jesus. Entre os protestantes, ainda que reconheçam a mulher que aceitou a missão de gerar o "filho de Deus", não há a mesma devoção.
Segundo o teólogo e escritor evangélico Gutierres Fernandes Siqueira, a controvérsia parte da Reforma Protestante, quando o ponto central era especificamente a invocação de oração a Maria. O marco dessa divergência é o episódio de 31 de outubro de 1517, quando o então monge Martinho Lutero afixou na porta de uma igreja suas 95 teses contra o que via como abusos e incoerências do catolicismo, na atual Alemanha.
O frade franciscano Maurício Solfa explica que Lutero e Calvino reconheciam Maria e falavam dela com respeito. O conflito estava sobretudo em como ela deveria ser venerada e qual o lugar de sua devoção no meio cristão. O pastor luterano Valdir Steuernagel lembra que Lutero escreveu um pequeno livro intitulado Magnificat: O Louvor de Maria, no qual a apresenta como serva de Deus, que não chama para si nenhum papel de ídolo. O reformador alemão acreditava na virgindade perpétua de Maria.
Um segundo ponto de atrito é o uso de imagens. Os textos bíblicos condenam a idolatria e a adoração de qualquer coisa que não seja Deus. Católicos enfatizam que a relação com Nossa Senhora é de veneração ou devoção; muitos protestantes veem nisso uma ultrapassagem dessa linha e criticam os católicos por adorar Maria. "Católicos não adoram Maria, não idolatram Maria. É veneração", esclarece Solfa.
O teólogo Siqueira observa que outros protestantes históricos, como Jean Calvino e Ulrico Zuínglio, escreveram sermões sobre Maria, colocando-a em um patamar elevado como exemplo de fé — algo que, segundo ele, não se vê hoje em pregações evangélicas. "Não é que o evangélico seja contra Maria. Mas há um medo de parecer católico", afirma. Os dogmas marianos, por sua vez, foram uma construção ao longo de dois milênios, com o último datado de 1950.
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