Mercado prevê estagflação em 2027 e cenário parecido com o da era Dilma
Bancos, corretoras e consultorias revisaram suas projeções para a economia brasileira em 2027 e passaram a trabalhar com um cenário de crescimento baixo e inflação elevada, com risco de recessão. O quadro remete a 2014, quando a deterioração econômica do governo Dilma Rousseff levou à queda do PIB por dois anos consecutivos, em 2015 e 2016 — a pior recessão do país desde a redemocratização.
O alerta mais drástico partiu do Itaú BBA. O banco elevou de 4,6% para 6,1% a estimativa de inflação para 2027 e reduziu de 1,2% para 0,5% a previsão de crescimento do PIB. A inflação projetada ficou 1,6 ponto percentual acima do teto da meta, de 4,5%, enquanto o crescimento esperado representa menos de um quarto da expansão de 2,3% registrada em 2025. O banco também abandonou a expectativa de redução dos juros: em vez de encerrar 2027 com a Selic em 12,5%, passou a projetar a taxa em 13,75% durante todo o ano. Segundo o Itaú, a revisão reflete a combinação de maior pressão inflacionária, endividamento elevado de famílias e empresas e incertezas sobre as contas públicas, além dos efeitos potenciais da reforma tributária, das mudanças na jornada de trabalho e de alterações em tributos e subsídios sobre combustíveis.
Outras instituições já apontavam perda de fôlego. O ASA reduziu de 1,5% para 1% sua projeção de crescimento do PIB em 2027. Levantamento da BGC Liquidez mostrou expectativa mediana de inflação de 5,3% para 2027, com 11% dos participantes projetando alta superior a 6%. A Anbima elevou a previsão do IPCA de 4,3% para 4,9% e reduziu a de crescimento de 1,34% para 1%. Na quarta-feira (4), o Copom interrompeu o ciclo de cortes e manteve a Selic em 13,75% ao ano, encerrando sequência de cinco reduções iniciada em março. As projeções do colegiado para a inflação de 2026 passaram de 5,2% para 5,6%, e as de 2027, de 3,9% para 4,7% — ambas acima do teto da meta.
Para Silvio Campos Neto, economista da Tendências Consultoria, os desequilíbrios que antecederam a recessão de 2015 e 2016 tinham origem diferente: o país vinha de anos de forte intervenção estatal, com crédito subsidiado e dependência do BNDES e de estatais. Agora, diz, a situação é mais delicada. “Nós temos uma situação fiscal pior, a dívida está mais alta do governo e os juros também estão mais altos”, afirma, citando ainda o endividamento privado. Ele projeta crescimento de apenas 0,7% do PIB em 2027. João Mário de França, do FGV-Ibre, avalia que o modelo baseado em impulsos fiscais mostra sinais de esgotamento e que o aumento da renda tem se convertido cada vez menos em consumo, porque as famílias destinam boa parte dos recursos ao pagamento de dívidas.
O Itaú estima que seria necessário um ajuste da ordem de 4 pontos percentuais do PIB, concentrado no controle das despesas. A dívida bruta cresceu 11,2 pontos percentuais do PIB no atual governo e chegou a 82,9% do PIB em setembro de 2026, segundo o BC. Entre o último pregão antes do segundo turno (23 de outubro) e 4 de novembro, o Ibovespa acumulou queda de aproximadamente 18,5%, e o dólar subiu 8,7%, de R$ 5,04 para R$ 5,48. Na quinta-feira (5), o presidente Lula se reuniu com o ministro da Fazenda, Dario Durigan, e com os demais integrantes da equipe econômica para discutir política econômica; após o encontro, Durigan afirmou que não foram discutidas medidas fiscais.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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