A chilena obrigada a esperar que sua filha morresse no ventre: 'Você se sente como se fosse um carrasco'
A professora de música chilena Catalina Pizarro, de 39 anos, acusa seu médico de ter obstruído seu direito ao aborto legal no Chile. Quase oito anos após a morte da filha Clara em seu ventre, ela ainda tenta explicar uma sensação que não consegue superar: "Você se sente como se fosse um carrasco. Você se sente suja, culpada. Você nunca mais volta a habitar seu corpo da mesma forma", afirmou à BBC News Mundo.
O coração de Clara parou de bater com 20 semanas de gestação, em 5 de dezembro de 2018. Semanas antes, Pizarro havia pedido à equipe médica que praticasse o aborto por inviabilidade fetal, uma das três causas legalizadas no país desde 2017, ao lado de estupro e risco de morte para a mãe. Em 3 de setembro, o Quarto Juizado Civil de Santiago acolheu parcialmente a ação contra o ginecologista e obstetra Eduardo Carstens Ulloa, então chefe da maternidade da antiga Clínica Tabancura. A Justiça entendeu que o médico não cumpriu suas obrigações contratuais e profissionais e criou obstáculos ao direito de Pizarro previsto na lei. Foi ordenado o pagamento de indenização de 100,275 milhões de pesos chilenos, cerca de US$ 100 mil (aproximadamente R$ 548 mil).
O médico recorreu da decisão em primeira instância. Se confirmada, ela poderá estabelecer um precedente histórico no Chile. Para Francisca Millán, advogada de Pizarro, seria a primeira sentença favorável dessa natureza no país. A defesa de Carstens sustenta que sua atuação seguiu a legislação e a boa prática médica e que o quadro de Pizarro não configurava as condições necessárias para o aborto.
Pizarro e o marido tentavam engravidar havia um ano e meio quando ela iniciou o pré-natal na clínica privada, hoje Clínica RedSalud Vitacura. Os exames foram normais até a 11ª semana, quando a ecografia revelou que Clara tinha higroma cístico bilateral com hidropsia generalizada — anomalia do sistema linfático que provoca acúmulo de líquido, geralmente no pescoço do feto, e que, segundo a Sociedade Internacional de Ultrassom em Ginecologia e Obstetrícia, eleva o risco de anomalias cromossômicas, malformações e morte fetal. Desde o início, segundo ela, os médicos disseram que o diagnóstico impediria a gravidez de chegar ao fim.
Após o resultado, Pizarro discutiu pela primeira vez com a ginecologista a possibilidade de interromper a gestação. A lei exige dois diagnósticos idênticos de médicos especialistas para atestar a inviabilidade. Ela buscou outras opiniões e, em 26 de outubro, o médico Waldo Sepúlveda concluiu em relatório que o caso poderia ser enquadrado como inviabilidade. Ainda assim, o comitê de ética da clínica pediu novos exames e informou que o caso passaria a ser conduzido por Carstens. Pizarro relata que, em reunião em 12 de novembro, o médico afirmou que seu caso não atendia às condições previstas na lei.
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