Futuro de refúgio de Hitler incendiado gera debate na Alemanha sobre o passado nazista
As ruínas carbonizadas do Kehlsteinhaus, conhecido como Ninho da Águia, no alto dos Alpes alemães, na Baviera, estão no centro de um debate sobre como lidar com o legado nazista. O retiro foi construído pelos nazistas em 1938 e frequentado por Adolf Hitler e outros integrantes de alta patente do regime, além de convidados. Após a Segunda Guerra Mundial, foi classificado como monumento histórico que relembra a era nazista.
O local foi devastado por um incêndio na noite de 23 de outubro, possivelmente criminoso. Segundo a polícia, o Ninho da Águia foi em grande parte destruído, enquanto o Centro de Documentação de Obersalzberg, inaugurado nas proximidades na década de 1990, saiu ileso. As autoridades não comentaram sobre um possível motivo, mas um homem de 33 anos com histórico de doença mental foi detido em um hospital psiquiátrico de segurança máxima sob suspeita de incêndio criminoso.
Antes do incêndio, o Ninho da Águia era uma atração turística popular, pertencente ao Estado da Baviera e funcionando como restaurante há muitos anos. Os visitantes subiam de ônibus e depois pelo elevador original, com painéis de latão e espelhos, que atravessa a montanha até a Kehlsteinhaus, a 1.834 metros acima do nível do mar. Dezenas de milhares de turistas visitavam a região a cada temporada, proporcionando importante fonte de renda para a comunidade.
Alguns defendem que o local seja destruído e devolvido à natureza. "Já foi incendiado. Foi destruído. Acho que deveriam simplesmente remover os escombros e deixar a montanha como deveria ser, em seu estado natural", afirmou o professor Richard J. Evans, especialista em Alemanha nazista da Universidade de Cambridge, citando o caso do bunker de Berlim onde Hitler se matou, posteriormente preenchido com concreto e coberto por um parque infantil. Já as autoridades da Baviera se manifestaram a favor da reconstrução. O ministro do Interior do Estado, Joachim Herrmann, disse que "não podemos deixar uma ruína ali de pé", e o ministro das Artes, Markus Blume, deixou claro que a obra "não deve e não pode custar nada ao contribuinte".
Sven Keller, chefe do Centro de Documentação de Obersalzberg, argumenta que deixar o local em ruínas poderia encorajar peregrinos neonazistas. "Temos bastante experiência em Obersalzberg com o que acontece quando demolimos esses locais", disse ele, lembrando que o Berghof, residência de verão de Hitler demolida na década de 1950, não foi apagado da memória coletiva. A historiadora Isabel Heinemann, da Universidade Ludwig-Maximilians de Munique, avalia que uma reconstrução completa deveria estar "fora de questão", mas defende documentar o estado deixado pelo incêndio e reconstruir partes com design moderno. O debate ocorre em meio ao ressurgimento da extrema-direita no país e à polêmica sobre a Cultura da Memória, tema que também envolve a Áustria, onde uma delegacia foi inaugurada na casa onde Hitler nasceu.
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