As aves comedoras de crianças que moldaram nossa evolução na Idade da Pedra
Após a extinção dos dinossauros não avianos, aves gigantes ocuparam o topo da cadeia alimentar por dezenas de milhões de anos, até a Grande Era do Gelo. Entre suas presas estavam os ancestrais dos seres humanos. O caso mais conhecido é o do "menino de Taung", um jovem Australopithecus africanus de cerca de três anos, morto há 2,8 milhões de anos na savana sul-africana. Marcas de punção em suas órbitas oculares são compatíveis com garras de águias, que caçam dessa forma e costumam armazenar parte da caça em árvores.
Com o fim dos dinossauros, o céu ficou coberto de poeira e a maioria das plantas se extinguiu. Restaram as sementes, alimento adequado para aves, e a ausência de predadores permitiu que pequenas aves terrestres evoluíssem para tamanhos enormes. Algumas eram vegetarianas, como os Dromornithidae da Austrália, aves semelhantes a patos, mas cerca de 100 vezes maiores e mais pesadas que vacas. Outras se tornaram predadores oceânicos, como o Pelagornis sandersi, maior ave voadora conhecida, com envergadura de sete metros. Houve ainda as que ocuparam o lugar deixado por grandes predadores terrestres: onde há presas grandes disponíveis, surgem predadores ainda maiores.
O primatologista Scott McGraw, da Universidade Estadual de Ohio, afirma que, desde o surgimento dos primatas, existiram aves de rapina, e elas sempre tiveram primatas como presas, incluindo os humanos e seus parentes. Ele examinou restos de mais de 600 primatas modernos mortos por aves como a águia-coroada africana, na floresta Taï, na Costa do Marfim, e encontrou lesões no assoalho orbital — a superfície óssea dentro da órbita ocular — semelhantes às do menino de Taung. Para McGraw, as aves de rapina podem ter sido uma das forças seletivas mais importantes da evolução dos primatas.
O arqueólogo James Cole, da Universidade de Brighton, diz que não há dúvidas no registro paleoantropológico de que os primeiros humanos foram presas, incluindo hominíneos como o bebê Australopithecus africanus. Entre os predadores estavam aves, leopardos, hienas e crocodilos gigantes. A necessidade de escapar deles teria pressionado mudanças evolutivas: a postura ereta ajudaria a avistar predadores, e a cooperação, o altruísmo e a proteção mútua também teriam contribuído. O tamanho do grupo se tornou decisivo — "existe segurança na quantidade", segundo Cole.
Diferentemente de predadores de perseguição, como leões e lobos, as aves de rapina são, muitas vezes, predadores de emboscada: escondem-se nas árvores até o momento do ataque. Por isso, quanto maior o grupo social, melhor a vigilância contra ataques surpresa, o que é conhecido como "efeito de muitos olhos". Acredita-se que esses conflitos antigos tenham moldado tanto nossos corpos quanto nossas mentes, e que algumas dessas aves tenham deixado marcas nas lendas sobre aves que agarravam crianças, preservadas na cultura muito depois de sua extinção.
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