Por que astrônomos fabricam estrelas falsas com lasers gigantes?
No deserto chileno do Atacama, enormes lasers atravessam o céu noturno a partir de uma estrutura no topo de uma montanha. A cena, que lembra um filme de ficção científica, é o funcionamento do Telescópio Muito Grande (VLT, na sigla em inglês), de Paranal, operado pelo Observatório Europeu do Sul (OES). No final de 2025, os engenheiros concluíram a instalação do último de uma série de poderosos lasers. Agora, são ao todo sete equipamentos, e os quatro telescópios principais do VLT — Antu, Kueyen, Melipal e Yepun — podem disparar lasers ao mesmo tempo, algo que a BBC testemunhou pela primeira vez durante visita recente às instalações.
A técnica, chamada de óptica adaptativa, existe para resolver um problema central da astronomia feita da superfície terrestre: a atmosfera. Os gases que envolvem o planeta distorcem a luz das estrelas antes que ela chegue aos espelhos dos telescópios, e as condições atmosféricas mudam constantemente. "A nossa atmosfera nos protege, o que é fantástico. Mas, para os astrônomos, é horrível, pois a atmosfera basicamente prejudica a nitidez da luz proveniente das estrelas e galáxias", explica a astrônoma Amelia Bayo, cientista de projetos do OES. Sem compensar esse efeito, diz ela, a estrela observada "ficará pulando em diferentes lugares do seu detector" e a imagem sairá borrada.
Para corrigir a distorção, a luz refletida pelo espelho principal do telescópio é direcionada a um espelho menor, que se deforma para adequar a imagem. No VLT, esse espelho contém materiais piezoelétricos, capazes de gerar cargas elétricas e mudar de forma em velocidades altíssimas, e fica suspenso dentro de um campo magnético — "basicamente, está flutuando", descreve Bayo. O sistema precisa, porém, de uma estrela brilhante como ponto de referência. Quando não há uma estrela natural com o brilho adequado na região observada, entram em cena os lasers.
O disparo excita uma camada rica em sódio na atmosfera, a cerca de 90 km acima do solo. Os átomos de sódio emitem fótons captados pelos espelhos do telescópio, formando o que os astrônomos chamam de estrela artificial. "Nossa atmosfera é rica em sódio. Ela oferece uma lona onde podemos colocar a estrela onde quisermos", afirma a astrônoma. Cada laser fornece 22 Watts de potência, cerca de 4 mil vezes a potência máxima de uma caneta laser, em um feixe com 30 centímetros de diâmetro. A ideia de usar lasers na astronomia remonta à Guerra Fria, quando as Forças Armadas americanas desenvolveram tecnologia para rastrear satélites soviéticos e os astrônomos perceberam que técnicas similares poderiam melhorar as observações em terra.
Os equipamentos atuais são acionados com o simples pressionar de um botão e permanecem fixos durante toda a noite, segundo a reportagem. A segurança aérea é tratada com um mecanismo automático: "Se os aviões cruzarem o espaço aéreo perto do nosso local de observação, os lasers são desligados automaticamente", explica Itziar de Gregorio-Monsalvo, representante do OES no Chile. O VLT foi responsável por descobertas como a primeira imagem de um exoplaneta e as posições de estrelas que se movem ao redor do buraco negro no centro da Via Láctea.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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