O que esperam os 6 milhões de afegãos deportados de volta ao país governado pelo Talibã
Mais de 1 milhão de afegãos foram obrigados a retornar ao Afeganistão neste ano, vindos do Paquistão e do Irã, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). O movimento faz parte do maior deslocamento forçado de pessoas entre fronteiras registrado atualmente no mundo. Desde que o Talibã retomou o poder, em agosto de 2021, cerca de 6 milhões de pessoas voltaram ao país, número equivalente à população de uma nação de pequeno porte.
As deportações em massa foram intensificadas depois que Paquistão e Irã endureceram as medidas contra imigrantes sem documentação. Na passagem de Torkham, na fronteira com o Paquistão, famílias chegam em caminhões com pertences amontoados e são recebidas em abrigos de lona e plástico montados pela ONU e por organizações humanitárias. Muitos dos que retornam não pisavam no Afeganistão havia décadas; outros, como Nazia, de 35 anos, nascida no Paquistão, nunca tinham estado no país. "É bom estar no meu próprio país, mas nunca estive no Afeganistão, e muita gente aqui não tem nem pão suficiente para comer", disse ela.
O governo paquistanês afirmou, por meio de um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, que toma as medidas necessárias para evitar assédio ou maus-tratos contra cidadãos afegãos e que episódios desse tipo, se ocorreram, foram casos isolados. Organizações de direitos humanos, no entanto, denunciam operações de porta em porta, buscas durante a madrugada e prisões sem mandado. No Irã, as deportações ganharam força após o conflito de 12 dias contra Israel e os Estados Unidos, em junho de 2025, com acusações de que imigrantes afegãos seriam tratados como possíveis espiões.
Entre os que retornam, há relatos de medo e apreensão. Mulheres temem o futuro das meninas em um país onde o Talibã as excluiu do ensino médio e das universidades. Um ex-segurança afegão, deportado do Irã e depois do Paquistão, disse não confiar na anistia anunciada pelo grupo após a volta ao poder. "Não confio nessa anistia porque muitos dos meus colegas foram mortos", afirmou. O Paquistão confirmou que 16 mil afegãos em situação de vulnerabilidade receberam isenção temporária da deportação, mas estimativas indicam que até 250 mil pessoas ainda correm risco de sofrer danos graves caso sejam obrigadas a voltar.
O ministro das Relações Exteriores do Talibã, Amir Khan Muttaqi, admitiu que o retorno em massa pressiona o país. "Não há dúvida de que precisamos de alguma ajuda. O retorno dessas pessoas exerce pressão sobre o país, mas, no longo prazo, será benéfico tanto para elas quanto para o Afeganistão", disse. O Acnur defende que qualquer retorno deve ser voluntário, seguro e digno, mas a situação na fronteira segue precária, com famílias sem recursos para recomeçar a vida.
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