O luto da professora que perdeu mais de 200 alunos no duplo terremoto na Venezuela: 'Eram como meus filhos'
A professora venezuelana Madeleine Cova vive um luto que, segundo ela, muitas pessoas ao seu redor têm dificuldade de compreender. "Muitas pessoas não entendem por que me sinto assim, se a minha família está bem, se meus filhos estão bem, se comigo não aconteceu nada", relata. "Mas estou sempre triste." Ela diz que lhe disseram que o que sente não é depressão, mas um estado de tristeza profunda — e define sua condição como luto.
Madeleine se refere aos alunos que morreram no duplo terremoto que sacudiu o norte da Venezuela em 24 de junho. Antes da tragédia, ela dava aulas de Espanhol e Literatura na escola privada Alejandro Otero, em La Guaira, e era coordenadora do segundo ano do ensino médio na escola pública Juan José Mendoza, onde continua trabalhando. Em julho, publicou um vídeo no TikTok dedicado aos estudantes. "O terremoto me tirou parte de mim", escreveu. "Meus 15 alunos do particular e 100 do público." À época, ela contabilizava 115 estudantes mortos. "Hoje, na escola pública, tenho mais de 230 meninos falecidos e mais de 200 desaparecidos", afirma.
Segundo a professora, muitos dos alunos da escola Juan José Mendoza moravam em algumas das zonas mais devastadas pelos terremotos em La Guaira. Ela conta que a unidade tinha cerca de 22 seções de ensino médio e que, após a tragédia, apenas cinco foram preenchidas — uma por ano. "Ter só uma seção é devastador, devido ao contexto: tantas perdas, mais todos os alunos que se foram para outros Estados da Venezuela, em busca de refúgios temporários com seus familiares. Perdemos muita população estudantil", descreve. "Nós professores, estamos arrasados, estamos imensamente arrasados."
Madeleine relata ainda um sentimento de culpa que a persegue. "Eu me pergunto: por que, naquele feriado, decidi descansar e não inventar algo com eles? Por que não convidei as crianças para irmos à praia, fazer um piquenique?", diz. Ela também menciona o período em que precisou ir a Caracas ajudar uma sobrinha ferida. "Tenho sentimento de culpa por não ter ficado enquanto eles eram procurados entre os edifícios que desabaram. Isso me atormenta."
A professora descreve a relação próxima que mantinha com os estudantes. "Eles me contavam seus problemas, suas metas. Conversávamos muito, saíamos para comer, eu ia aos seus aniversários", lembra. "Para mim, eles eram como meus filhos." Ela conta que as mães que perderam seus filhos a procuram por telefone e mensagens, e que se consolam mutuamente. "Acontece de eu ir para lugares para me divertir e me sinto culpada porque não quero me sentir bem. Não quero esquecer o quanto eles significavam para mim e que não estão mais aqui."
De acordo com números do governo venezuelano, os terremotos deixaram mais de 6,5 mil mortos. Outras fontes estimam que a tragédia também tenha deixado milhares de desaparecidos, mas não há certeza sobre esses números. Em 14 de setembro, o governo deu início ao novo ano escolar no país. Na ocasião, a presidente em exercício, Delcy Rodríguez, recordou as crianças e adolescentes mortos e afirmou que 11 escolas desabaram e quase 1.017 sofreram danos, muitas já reabilitadas e outras em processo de recuperação. Ela destacou que o duplo terremoto afetou mais de 86 mil crianças, realocadas em diferentes escolas para poderem assistir às aulas.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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