O auto extermínio e a virtude da esperança
O padre Rafael Solano, da Arquidiocese de Londrina, reflete sobre a relação entre o autoextermínio e a virtude teologal da esperança a partir de sua experiência no estudo da suicidologia. Ao preparar um curso sobre o tema, ele recorda a afirmação do cardeal Walter Kasper de que "a esperança é a fonte da nossa sobrevivência, da capacidade de resistir, de ir em frente", e que não se confia em algo, mas em alguém — relação com Jesus que sofreu, morreu e ressuscitou.
Segundo o autor, há no ambiente do mundo uma desesperança constante que atinge o coração de muitas pessoas, inclusive membros do clero. Bispos, padres e diáconos, escreve, sofrem por antecipado aquilo que a esperança como virtude teologal os ajudaria a superar. Ele observa que o autoextermínio aumenta em uma sociedade que se considera de altíssima performance, mas de baixa autoestima e valorização, e que os índices não apenas cresceram como suas consequências se tornaram cada vez mais destoantes.
O texto propõe três eixos de análise dentro da suicidologia. O primeiro trata do burnout e do suicídio: segundo o autor, a criatividade foi trocada pela eficácia e boa parte do exercício ministerial se tornou meramente funcional. Ao perder a criatividade, diz, desapareceram o lúdico e o prazer pelas pequenas coisas, e muitos bispos e presbíteros sofrem de anedonia constante. Ele alerta que a toxicidade da eficiência virou neurose da produção constante, retirando o tempo para a contemplação, a reflexão e a paz do espírito, e cita são João da Cruz: "A esperança do céu / Tanto alcança quanto espera".
O segundo eixo é a alexitimia, condição psicológica em que a pessoa tem incapacidade de identificar, nomear e expressar as próprias emoções, parecendo fria, racional e robótica — o que popularmente se chama "viver no automático". Para o autor, decodificar emoções e sentimentos é fundamental, e o desequilíbrio afetivo de muitos reside justamente nessa incapacidade de manifestar o que sentem. O terceiro eixo é o borderline, patologia ligada à insatisfação afetiva extrema, marcada por sentimento crônico de vazio, medo do abandono e instabilidade nos relacionamentos. Ele afirma que a aceitação da frustração se tornou distante da vida de muitos bispos e presbíteros e que as redes sociais e a ingerência digital transformaram homens não em públicos, mas em "publicados".
Como caminho, o autor defende que a prática da humildade constante ajuda a desaparecer para que Ele apareça e a aceitar com doçura as frustrações, acolhidas não como tormento, mas como possibilidade de liberdade e sensatez no ministério. Ele afirma que o autoextermínio não é a saída para nenhuma dessas patologias e que sempre haverá alguém por perto para conversar e partilhar. Diante de qualquer pensamento ou intenção de acabar com a própria vida, orienta: procure alguém; falar é dar o passo definitivo para continuar vivendo.
Esta matéria foi publicada primeiro em Religião · Vatican News PT e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
Continue neste assunto
Palavras-Chave
Comentários nesta matéria
Comentário público sobre este texto. Após envio, a redação analisa antes de publicar. Para proposta de pauta ou assuntos privados, use mensagem à redação na sua conta.
Ainda não há comentários publicados nesta matéria.
Sua avaliação desta matéria
Clique nas estrelas para avaliar — pediremos que entre com seu e-mail.
Entre com seu e-mail para comentar nesta matéria (enviamos um link rápido, sem cadastro longo).
Entrar para comentar