'Metástase' da crise entre ministros do STF ameaça instituições brasileiras, dizem especialistas
O embate entre os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e André Mendonça, que começou após a revelação de diálogos entre o banqueiro Daniel Vorcaro e um contato atribuído a Moraes, deixou de ser uma crise restrita à Corte. Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, a sucessão de vazamentos e decisões já atinge outras instituições da República.
Na terça-feira (8/9), Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada, alegando que ele próprio vinha sendo alvo de monitoramento sistemático e ilegal pela PF havia mais de 30 dias. A Segunda Turma do STF formou maioria para manter o afastamento, mas o julgamento foi suspenso após pedido de vista de Gilmar Mendes. Onze diretores da PF colocaram seus cargos à disposição em apoio aos afastados, e a AGU contestou a decisão. Nesta quarta-feira (9/9), o ministro Flavio Dino determinou a reintegração de Rodrigues e Almada.
Para Aury Lopes Jr., doutor em direito processual penal, a crise se espalha por diferentes instituições e níveis. "É uma coisa nunca vista. São mencionados outros ministros do Supremo, o senador Davi Alcolumbre, o diretor-geral da Polícia Federal, o PGR. Eu percebo a contaminação, a metástase", afirma. O professor da FGV Rio Marco Antonio Teixeira avalia que a crise pressiona o presidente do Senado a abrir um pedido de impeachment contra Moraes, enquanto o próprio Alcolumbre é citado em delação de Vorcaro e em relatório da PF.
Treze ministros aposentados do STF enviaram carta ao presidente da Corte, Edson Fachin, classificando o momento como a "mais aguda crise" de sua história e pedindo apuração rigorosa dos fatos. A Transparência Internacional Brasil também divulgou nota alertando para risco de "colapso institucional". Para Teixeira, o descrédito individual dos envolvidos atinge as instituições e se acentua à véspera do processo eleitoral.
Especialistas destacam ainda o caráter político do conflito e o impacto dos vazamentos seletivos sobre a credibilidade das instituições. Segundo Renan Melo, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o episódio pode ser usado como munição eleitoral, mas seu efeito sobre o resultado tende a ser limitado, restrito ao núcleo de eleitores indecisos.
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