Lula precisará transformar partidos bolsonaristas em aliados para conseguir governar, aponta Sérgio Abranches
O sociólogo e cientista político Sérgio Abranches avalia que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisará atrair legendas bolsonaristas para conseguir governar em seu último mandato. Autor do conceito de "presidencialismo de coalizão", criado nos anos 1980, ele afirma que o petista terá de contornar a rivalidade acirrada da eleição para montar uma coalizão funcional com o PT.
"Lula vai precisar colocar mais os partidos que elegeram poucos deputados [na sua coalizão] e ainda transformar alguns partidos bolsonaristas em aliados ao governo no Centrão, porque, se não, ele não conseguirá governar", disse Abranches em entrevista à BBC News Brasil. O próprio Lula indicou que pretende seguir esse caminho. "Eu não escolhi o Congresso. Foi o povo que escolheu e é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas", declarou após a oficialização do resultado.
Na avaliação do cientista político, boa parte dos congressistas de partidos de direita tende a aceitar integrar a coalizão governista. "O PL ficou muito forte no Congresso: fez a maior bancada da Câmara [com 121 deputados] e fez vários senadores [19]. Isso deu uma sobrevida parlamentar à extrema-direita, mas a centro-direita vai migrar para a coalizão do Lula, e é aí que ela poderá usar as suas lideranças democráticas para fazer um contraponto conservador, de centro-direita, ao PT e ao PSB", argumenta. "Eles ainda querem ir para o governo, ainda querem ser ministros, ainda querem dirigir certas organizações", completa.
Será nessa relação institucional que, segundo Abranches, uma "direita democrática" pode se impor sobre a direita radical. Na entrevista, ele também discutiu os motivos que levaram Lula à segunda reeleição e a continuidade do bolsonarismo como força política após a segunda derrota seguida nas urnas.
Para o cientista político, a virada do primeiro para o segundo turno teve dois fatores decisivos: a mudança do tom da campanha e a digitalização. Ele lembra que Lula achou que venceria já no primeiro turno — parte da abstenção de 21,08% se deveu a isso — e que a ida da campanha para as ruas no segundo turno, com entusiasmo, fez toda a diferença. Abranches aponta ainda um erro grave do adversário: "Ele achou que já estava eleito e, aí, entrou no segundo turno muito arrogante. Já estava distribuindo ministérios".
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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