Esquerda que ri de 'CEO de MEI' não entende os sonhos do novo trabalhador, diz antropóloga
A antropóloga brasileira Rosana Pinheiro-Machado, que dirige um laboratório na University College Dublin, na Irlanda, afirma que as redes sociais ampliaram de forma dramática a capacidade de sonhar de milhões de brasileiros e que a direita radical domina hoje a linguagem capaz de falar com esse público. Em entrevista à BBC News Brasil, ela diz que a esquerda que ri de quem se autodenomina "CEO de MEI" não compreende os sonhos do novo trabalhador.
Segundo a pesquisadora, o fenômeno se repete em países que tiraram milhões de pessoas da pobreza nas últimas décadas, como Brasil, Índia e Filipinas. Ao experimentarem mobilidade social inédita, essas pessoas adquiriram bens e passaram a ver de perto, ou pela tela do celular, a conquista dos outros. "A gente aspira tudo aquilo que a gente pode ver", afirma. Para ela, o digital passou a oferecer uma promessa fácil e rápida que parece solucionar problemas de tempo, dinheiro e respeito.
As pesquisas de Pinheiro-Machado, que acompanham milhões de aspirantes a empreendedores digitais nas redes, apontam, porém, que pouquíssimos conseguem de fato realizar esses sonhos no Brasil. O resultado, diz, é raiva e frustração direcionadas ao Estado, à "vizinha preguiçosa" e a si mesmos — que passam a culpar-se pelo fracasso e a dobrar a aposta em novos coaches e noites sem dormir.
A antropóloga afirma que se consolidou no país uma legião de influenciadores que "surfam nos sonhos dos outros" enquanto propagam ideias caras à direita radical. Segundo ela, 90% dos influencers do campo do marketing digital estão de alguma maneira alinhados à extrema direita, conclusão baseada em mais de dois anos de acompanhamento quantitativo e qualitativo. Esse grupo, diz, defende que o crescimento é puramente individual e que basta mudar o mindset e romper com a família para vencer.
Para Pinheiro-Machado, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ter dificuldade para falar com essa nova classe de aspirantes digitais. "A população brasileira aumentou sua capacidade de aspirar, em grande medida, pelos governos do PT. Mas o que se faz com isso?", questiona. Ela defende que aspiração não se resume a emprego pleno, mas envolve respeito, conforto e dignidade, e critica o deboche de parte da esquerda e da classe média em relação a quem adota títulos como "CEO" para uma lojinha online. "Minha proposta não é ridicularizar esse processo, é o oposto", diz.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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