Eles viram a mãe ser assassinada e foram baleados pelo próprio pai — como irmãos lutaram anos por Justiça
Zaldo Just Neto tinha 2 anos e 8 meses quando seis tiros disparados pelo próprio pai mudaram o rumo de sua vida. Um deles atingiu seu rosto enquanto ele brincava no chão; outro acertou o ombro de sua irmã; um terceiro ficou nas costas de seu tio; e os outros três foram desferidos contra a cabeça de sua mãe, Maristela Just, então com 25 anos. O crime ocorreu em uma noite de abril de 1989, em Jaboatão dos Guararapes, na região metropolitana do Recife.
José Ramos Lopes Neto, pai de Zaldo, não aceitava o fim do relacionamento e pediu uma reunião com a ex-mulher e os filhos. Trancado no quarto da casa dos ex-sogros, cometeu o feminicídio e três tentativas de homicídio. Zaldo, hoje com 40 anos, não lembra daquela noite, mas carrega as sequelas: o tiro causou uma grave lesão neurológica que comprometeu o desenvolvimento motor de todo o lado esquerdo do corpo. Ele ainda sente tonturas e pequenos esquecimentos temporários.
O caso se tornou um dos mais conhecidos de Pernambuco e símbolo da morosidade da Justiça. Entre o assassinato e a condenação de José, em 2010, passaram-se 21 anos. A prisão só ocorreu em 2012, após denúncia anônima que indicava que ele faria uma visita à família em um bairro nobre do Recife. Ele foi condenado a 79 anos de prisão em regime fechado pelo homicídio e pelas três tentativas. Hoje, cumpre pena em casa.
Zaldo e sua irmã mais velha, Nathália, lideraram ao longo da vida a luta da família pela prisão do pai, a quem ele costuma se referir apenas como "genitor". Mobilizaram protestos, blogs e entrevistas para que o caso não caísse no esquecimento. Formado em direito, profissão que escolheu por ver na Justiça uma possibilidade de acerto de contas, Zaldo acaba de lançar o livro Além das Cicatrizes, em que revisita a tragédia familiar e reflete sobre os traumas permanentes.
"A sociedade ignora o impacto geracional que esse tipo de crime vai trazer para o país", afirma. "São 37 anos desde o assassinato da minha mãe, no mínimo duas gerações novas cresceram, e os números só aumentam." Segundo o Anuário da Segurança Pública divulgado em julho, os feminicídios no Brasil bateram recorde em 2025, com 1.571 crimes ao longo do ano passado — quatro mulheres mortas por dia —, alta de 4% em relação a 2024.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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