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Economistas criticam usar corte de gastos para conter dívida pública

Por Ivan Marra
Atualizado em 29/10/2026 às 14:35 schedule 4 min de leitura visibility 4 visualizações share 0 compartilhamentos (0)
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Economistas de correntes heterodoxas e desenvolvimentistas rejeitam a tese, difundida no mercado financeiro e em parte da imprensa, de que a trajetória da dívida pública brasileira deve ser combatida com corte de gastos primários — aqueles destinados à prestação de serviços públicos. O endividamento saiu de 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022 para cerca de 82,9% do PIB em agosto de 2026, patamar que economistas liberais classificam como o principal problema do próximo governo.

A professora do Instituto de Economia da Unicamp Simone Deos afirma que não há risco de calote da dívida nem de aumento da inflação em função do crescimento do endividamento bruto. Segundo ela, a dívida pública é emitida em reais, não em moeda estrangeira. “A história não mostra nenhum país que não tenha conseguido pagar a sua dívida interna, em moeda nacional, por falta de recursos. Haveria risco se a dívida fosse em dólares”, diz. A pesquisadora, que atua no Centro de Estudos de Relações Econômicas Internacionais (CERI) da Unicamp, acrescenta que muitos países têm dívida superior ou semelhante à brasileira, como Japão (236% do PIB), Estados Unidos (120%), Reino Unido (101%), Itália (135%), Índia (81,2%) e Canadá (110%), conforme dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) de 2024.

Para o professor de economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Fernando Henrique Lemos Rodrigues, a dívida ainda não preocupa como alertam os liberais. “A dívida enquanto proporção do PIB não é uma preocupação prioritária. A dívida está dentro dos parâmetros internacionais considerando a complexidade do Brasil e o peso da dívida interna. São níveis aceitáveis ainda, mesmo com o crescimento dos últimos anos”, afirma. Ele critica a comparação do Estado com uma família: “Nós não estamos falando de uma dona de casa, nem de uma dona de padaria. Estamos falando de um país com capacidade de arrecadação, de alongar o seu endividamento e de conseguir receitas das suas estatais”.

Os economistas apontam os juros altos como o principal fator de pressão sobre a dívida. A taxa de juros real de 8,45%, a maior do mundo segundo levantamento da consultoria Moneyou, e o gasto de R$ 1,1 trilhão em juros nos últimos 12 meses — 8,86% do PIB, conforme o Banco Central — explicam o avanço do endividamento. Ao longo de 2026, os juros nominais foram o principal fator para o crescimento de 4,2 pontos percentuais da relação dívida/PIB. Simone Deos afirma que o problema é o comprometimento crescente do orçamento com o pagamento de juros. “O que está causando essa trajetória de aumento é o pagamento de juros. E o problema dela é que uma parcela cada vez maior do PIB está sendo transferida para rentistas”, diz.

O Banco Central condiciona a redução dos juros à realização de superávits primários pela União e justifica as taxas elevadas por pressões inflacionárias e déficits fiscais. Fernando Henrique Rodrigues classifica a pressão por cortes como “chantagem” do mercado financeiro para manter os juros altos. “O mercado sabe que o governo não vai cortar. Existe um conluio para manter a taxa de juros alta. Um fundo de aplicação financeira tem cerca de 90% da rentabilidade vindo da dívida pública”, afirma. Simone defende mudanças na condução da política monetária e a discussão sobre a qualidade do gasto, sem prejuízo às políticas sociais. “Uma redução dos juros é mais do que suficiente para a dívida estabilizar. Para isso, precisa de uma ação coordenada com a questão cambial do BC. No mais, a gente tem que discutir qualidade do gasto”, comenta.

Esta matéria foi publicada primeiro em Economia · Agência Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.

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