Da pergunta sobre Deus a FHC à cadeirada de Datena: 5 debates que marcaram as eleições brasileiras
Os debates eleitorais já tiveram papel decisivo na definição do voto no Brasil, mas vêm perdendo espaço para a lógica dos cortes, dos memes e da disputa por atenção nos algoritmos. A avaliação é do analista político Rodrigo Augusto Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e doutor em Sociologia pela Unesp, ouvido pela BBC News Brasil para relembrar cinco confrontos que marcaram a história recente do país.
Para Prando, a transformação mais importante ocorreu na própria função do debate. Nas décadas de 1980 e 1990, havia mais espaço para discursos longos e confronto de ideias. Com a ascensão das redes sociais, os candidatos passaram a disputar também a atenção dos algoritmos. "Antigamente tinha muito mais informação, muito mais conteúdo. Óbvio, não havia redes, então os candidatos tinham um pouco mais de erudição e conhecimento. Aí os debates foram se perdendo ao longo dos últimos anos para praticamente virar um conjunto de cortes, de lacração e de memes", afirma.
O primeiro episódio lembrado é de 1985, quando as capitais voltaram a eleger prefeitos diretamente após duas décadas de restrições da ditadura militar. Em São Paulo, Fernando Henrique Cardoso liderava as pesquisas e chegou a ser fotografado sentado na cadeira de prefeito. No debate promovido pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo, o jornalista Boris Casoy perguntou a FHC se ele acreditava em Deus, e o candidato evitou responder diretamente. Jânio Quadros venceu a eleição por 39,33% a 35,80%. Segundo Prando, o episódio revela um traço duradouro da cultura política brasileira: a religiosidade como critério de confiança no candidato.
Em 1989, ano da primeira eleição direta para presidente desde 1960, 22 candidatos disputaram o pleito com regras mais flexíveis, inclusive a possibilidade de apartes. O primeiro debate presidencial televisivo da história foi realizado pela Bandeirantes em 17 de julho, mediado por Marília Gabriela. Em 16 de outubro, Paulo Maluf acusou Leonel Brizola de ser "desequilibrado" e recusou um aparte; Brizola reagiu chamando-o de "filhote da ditadura". Quando parte da plateia aplaudiu Maluf, Brizola chamou os presentes de "malufistas" e disse que haviam "engordado na ditadura". A mediadora interrompeu o programa para um intervalo. Brizola terminou em terceiro lugar, com 16,51%, 0,68 ponto atrás de Lula, que teve 17,19%.
Ainda em 1989, o confronto entre Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva, em 14 de dezembro, três dias antes do segundo turno, entrou para a história. No dia seguinte, a Globo exibiu resumos no Jornal Hoje e no Jornal Nacional, e a segunda edição gerou controvérsia: a emissora foi acusada de selecionar os melhores momentos de Collor e os piores de Lula. O PT recorreu ao TSE pedindo direito de resposta, mas o pedido foi negado. O episódio levou a emissora a rever sua cobertura e a adotar como norma a transmissão de debates na íntegra e ao vivo, sem edição.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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