Como o ar mais limpo acelera o aquecimento global — e vem revelando um problema maior
Uma discussão nas redes sociais sobre as ondas de calor do último verão europeu colocou em evidência uma mudança importante no estudo científico do clima. O vice-líder do partido britânico Reform UK, Richard Tice, compartilhou uma reportagem do jornal The Telegraph com o título "As ondas de calor causadas pela queda da poluição" e afirmou que o ar mais limpo, e não o dióxido de carbono, seria o responsável pelo aumento das temperaturas, dizendo que a população teria sido "ludibriada".
Tice errou ao indicar que o dióxido de carbono não é o principal causador do aquecimento global. Mas o fenômeno científico que ele distorceu é real. Os combustíveis fósseis queimados há mais de um século produzem dois tipos muito diferentes de poluição. O dióxido de carbono aquece a Terra, enquanto a poluição por enxofre forma minúsculas partículas no ar que refletem a luz do Sol de volta para o espaço, combatendo em parte o efeito do carbono.
Políticas de ar limpo adotadas em todo o mundo, como o programa de combate à chuva ácida dos Estados Unidos no início dos anos 1990, reduziram a poluição das usinas de energia. Com isso, as emissões de enxofre caíram fortemente, enquanto o dióxido de carbono segue próximo de recordes de alta. Os cientistas acreditam cada vez mais que a perda desse efeito resfriador acelera levemente o aquecimento global. Os três últimos anos foram os mais quentes já registrados, e o Serviço Meteorológico do Reino Unido afirma que 2027, "muito provavelmente", superará 2024 como o ano mais quente da história.
Segundo Øivind Hodnebrog, pesquisador do instituto Cicero, na Noruega, os aerossóis de sulfato são partículas pequenas, mas brilhantes, que além de refletirem a luz solar também resfriam o planeta ao alterar a formação de nuvens, agindo como sementes em torno das quais o vapor d'água se condensa. O efeito é mais forte quando essa poluição cai com rapidez. Um estudo estima que o enxofre aumentou o aquecimento do verão no centro-oeste da Europa em cerca de meio grau desde 1980. O cientista climático Piers Forster, da Universidade de Leeds, calcula que a redução dos aerossóis pode acrescentar de 0,05 °C a 0,1 °C de aquecimento por década.
Mas os aerossóis explicam apenas parte da aceleração recente. Os gases do efeito estufa continuam sendo muito mais importantes: Forster estima que eles acrescentem cerca de 0,2 °C ao aquecimento global por década. "Os aerossóis mascararam parte do aquecimento causado pelos gases do efeito estufa desde o princípio", explica Hodnebrog. Ou seja, o ar mais limpo não causa o aquecimento, mas retira parte do resfriamento que antes retardava o aumento do calor. Resta saber o que mais estaria contribuindo para a aceleração — questão que os cientistas investigam ao medir o desequilíbrio energético da Terra, a diferença entre a energia que o planeta absorve do Sol e o calor que perde no espaço.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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