As ferramentas de IA têm viés político e religioso (além de mentir descaradamente)
O uso de chatbots de inteligência artificial como o ChatGPT, Claude, Gemini, DeepSeek e Grok cresce como forma de acessar informações e obter orientação sobre os mais variados assuntos, de questões cotidianas a temas com implicações sérias, como em quem votar. A expectativa de imparcialidade, no entanto, não se confirma em grande parte dos casos, segundo estudos acadêmicos e experimentos jornalísticos.
No campo da política, a maioria das pesquisas publicadas aponta que ideias, opiniões e fontes conservadoras aparecem menos do que as progressistas em quase todos os chatbots, embora com diferenças importantes entre os modelos. Levantamentos divulgados em revistas científicas como Nature, Journal of Computational Social Science, Journal of Economic Behavior & Organization e Public Choice, além de instituições como Brookings Institution, Universidade de Stanford e Just Facts, sustentam essa conclusão.
Experimentos do jornal The Washington Post questionaram chatbots sobre mais de 20 temas com clara carga política, entre eles pena de morte, direitos trans, renda básica universal, política externa norte-americana, impostos sobre grandes fortunas e vouchers escolares. Em geral, posições e argumentos de esquerda foram mais citados do que os de direita. Os modelos da OpenAI, em particular distintas versões do ChatGPT, mostraram o maior viés esquerdista, mencionando apenas ideias progressistas em praticamente todos os temas. O DeepSeek apresentou comportamento semelhante. Já o Gemini, do Google, quase sempre ofereceu argumentos dos dois lados; o Claude, da Anthropic, deu as duas versões em metade das vezes e, na outra metade, apenas ideias de esquerda. Até o Grok, criado por Elon Musk e qualificado por ele mesmo como "anti-woke", mostrou inclinação maior para posturas do Partido Democrata do que do Republicano.
Em um experimento da Universidade de Stanford, as respostas dos chatbots foram avaliadas por 10 mil adultos norte-americanos de diferentes tendências políticas. O resultado repetiu o panorama de clara inclinação à esquerda, apontada inclusive por eleitores democratas, que consideraram enviesados nessa direção 20 dos 24 modelos analisados. Quando os pesquisadores instruíram explicitamente os chatbots a serem neutros, aumentaram as respostas que apresentavam os dois lados ou que reconheciam a complexidade do tema; ainda assim, entre as que ofereciam argumentos de apenas um lado, a maioria continuava sendo de esquerda.
O viés não se manifesta apenas na escolha dos argumentos. Pesquisa da Just Facts propôs a quatro chatbots 100 perguntas sobre assuntos debatidos, mas com resposta objetiva, cada uma para confirmar ou desmentir um dado falso atribuído ao Partido Democrata ou ao Republicano. Os pesquisadores registraram 76 respostas erradas em 400. Três dos quatro chatbots — todos exceto o Grok — acertaram mais ao desmentir discursos falsos republicanos do que democratas, ou seja, absorveram mais os boatos de esquerda. A maior diferença ocorreu no ChatGPT, que acertou 94% das respostas em um dos cenários analisados.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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