Aposta de Lula na PEC 6×1 esbarra na rejeição ao governo e na resistência da Classe C
A aprovação da Proposta de Emenda Constitucional que põe fim à escala 6x1 não deve, por si só, garantir uma virada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das Eleições 2026. A avaliação é de especialistas e analistas políticos ouvidos pela Gazeta do Povo, para quem a medida, apesar do apelo popular, não funciona como uma "bala de prata" com poder de definir o pleito.
Segundo o cientista político Flávio Santana, da Êxito Public Affairs, a PEC pode até reduzir a diferença entre os candidatos, mas dificilmente será suficiente, de forma isolada, para superar a rejeição política e as posições eleitorais já consolidadas. A campanha petista aposta que a proposta atraia o eleitorado da Classe C, maior fatia da população brasileira, descrita por Santana como um "verdadeiro caldeirão social", que reúne trabalhadores assalariados, consumidores, autônomos e pequenos empreendedores.
Levantamento do instituto Meio/Ideia apontou que Flávio Bolsonaro obteve 53% das intenções de voto na Classe C no primeiro turno, contra 37% do candidato à reeleição. Para Eduardo Grinn, cientista político da Fundação Getulio Vargas (FGV), a PEC tende a beneficiar Lula entre empregados do comércio e do setor de serviços, que veem a ampliação do descanso semanal como conquista concreta. Já a parcela da Classe C que atua como autônoma, avalia Santana, deve continuar priorizando crescimento econômico, empreendedorismo e menor influência do Estado, o que reforça a rejeição ao governo.
Os analistas também observam o contingente de cerca de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno, aproximadamente 21% do eleitorado nacional, o maior índice de abstenção em eleições gerais desde 1998, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A campanha petista aposta que a PEC ajude a mobilizar esse grupo, formado em boa parte por famílias de baixa renda e beneficiárias do Bolsa Família. Grinn lembra que cresceu a inserção de beneficiários do programa no mercado de trabalho, com uma política de transição em que o beneficiário segue recebendo o auxílio mesmo empregado.
Santana, porém, adverte que os votos desse grupo tendem a se dividir entre os dois concorrentes, com margem estreita, e que não há indícios claros de mobilização exclusiva pró-Lula. Para os especialistas, a promulgação da PEC representaria uma vitória política do governo no Congresso, mas seu efeito eleitoral esbarra em uma classe trabalhadora fragmentada, marcada pelo empreendedorismo individual, pela corrosão do poder de compra e pelo ceticismo em relação a promessas feitas às vésperas da eleição.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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