Virada de Lula aponta caminho para a esquerda voltar a vencer, diz pesquisador americano
A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno, com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% do adversário, segundo dados do TSE, mostra que a esquerda pode adotar táticas diferentes para vencer eleições em um momento de ascensão da direita na América Latina. A avaliação é de Christopher Sabatini, pesquisador sênior do Programa América Latina, EUA e Américas da Chatham House, think tank britânico sediado em Londres.
Segundo o pesquisador, desde que o presidente americano Donald Trump voltou ao poder, países como Colômbia, Chile, Bolívia, Peru e Equador elegeram líderes de direita. Para Sabatini, a campanha de Lula mudou de foco entre os turnos: no primeiro, a mensagem esteve centrada no combate à interferência dos EUA e em pautas tradicionais da agenda trabalhadora e sindical; no segundo, o presidente passou a falar sobre preocupações reais dos trabalhadores, incorporou influenciadores e ampliou a presença nas redes sociais.
"Em certo sentido, isso mostra que a esquerda pode ter futuro, especialmente quando enfrenta a direita e uma demanda popular por segurança para a qual a esquerda nem sempre conseguiu apresentar respostas", afirma Sabatini. Ele cita entre as táticas que ajudaram Lula a mudança de discurso sobre soberania nacional, a adaptação a temas como perdão de dívidas — diante do endividamento das famílias — e o reconhecimento de que a classe trabalhadora mudou, com uma força de trabalho mais ligada à economia de aplicativos e a trabalhos temporários.
O pesquisador pondera, porém, que o Partido Liberal teve desempenho forte nas eleições para o Congresso, governos estaduais e assembleias legislativas, e que o espaço da esquerda diminuiu. Ele lembra que, em 2018, muitos consideravam o fenômeno Jair Bolsonaro passageiro, mas o então candidato entrou no PL e transformou a legenda em força eleitoral. Ainda assim, avalia que, quando a esquerda consegue se unir, pode obter bons resultados.
Sobre os efeitos para a relação com os EUA, Sabatini diz que o futuro do movimento depende em parte do cenário americano. Ele afirma que Trump já declarou gostar de Lula e admira políticos vencedores, e que não seria do interesse do presidente americano agir como mau perdedor, especialmente perto das eleições de meio de mandato no país. Na avaliação do pesquisador, há boa possibilidade de Trump aceitar silenciosamente o resultado e seguir em frente.
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