Quilombo urbano na zona sul do Rio guarda lições de resistência
No quintal com coqueiro, goiabeira, bananeiras, uma paineira-rosa e um raro pé de abiu vivem as 14 famílias do Quilombo Urbano Ferreira Diniz, na Glória, zona sul do Rio de Janeiro. O local foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que reconheceu a importância histórica e cultural da comunidade e as pressões enfrentadas por seus moradores, como o alto custo de vida. O tombamento cobre toda a área do terreno, na Rua Cândido Mendes, e incluiu o quintal e os casarões, referências culturais e espaços de uso comunitário.
Como uma das ações de salvaguarda, o Iphan pretende fazer um inventário de referências e manifestações culturais do quilombo como desdobramento da proteção. O órgão descreve o endereço como uma “espécie de ilha verde” em meio a prédios altos, que “resiste à lógica individualizada dos apartamentos ao redor” e à gentrificação. Segundo Patricia Corrêa, superintendente do Iphan no Rio de Janeiro, o tombamento cumpre funções jurídica, territorial, simbólica e reparatória, ao enfrentar o apagamento e a expulsão das comunidades negras das áreas centrais e valorizadas das cidades.
Uma das atividades que mais atrai pessoas à comunidade é a Feijoada da Tia Cida, como é chamada Maria Aparecida Ferreira. Às sextas-feiras, desde cedo, ela é encontrada entre as panelas. O prato é servido aos visitantes no quintal, ponto de encontro e polo gastronômico. “Eu me sinto muito honrada em fazer essa feijoada, lembro da minha mãe, das minhas mais velhas”, disse Tia Cida, que após a pandemia fez do espaço um restaurante como forma de sobrevivência e de visibilidade à causa. O evento remunera as famílias e mobiliza ações na comunidade.
As famílias Ferreira e Diniz estão no terreno desde a década de 1950, quando a matriarca Maria Isabel Ferreira, descendente de africanos escravizados de Minas Gerais, se mudou para o casarão principal ao se casar com o zelador do prédio, Antônio Dias Pessanha. Em 2023, por se manterem em comunidade e laços que refletem o passado colonial, foram reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares como quilombolas. O principal casarão, de estilo neoclássico, abriga as moradias das famílias, que fizeram dos amplos cômodos da antiga hospedagem seus apartamentos, e necessita de reforma.
A expectativa da presidenta da Associação da Comunidade do Ferreira Diniz, Érida Ferreira, é que o tombamento impulsione o reconhecimento da posse coletiva do imóvel pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O instituto respondeu que acompanha o processo, que ainda está em fase inicial. A primeira etapa é a elaboração de um estudo técnico a cargo da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), documento que será entregue pela comunidade ao Incra até o final de 2026. Com a escritura em mãos, a comunidade espera acessar programas de reforma do casarão.
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