Do caipira ao agronejo: como a música sertaneja se tornou a mais ouvida do Brasil contemporâneo
A morte do cantor Rick, da dupla Rick e Renner, nesta semana, em um acidente de helicóptero, recoloca em evidência um gênero que atravessou quase um século de transformações até se consolidar como o mais ouvido do país. Rick era o nome artístico de Geraldo Antônio de Carvalho; Renner é Ivair dos Reis Gonçalves.
O sertanejo que hoje lidera as plataformas de streaming, segundo levantamento da Pró-Música Brasil, está longe da música caipira gravada na virada dos anos 1920 para os 1930. O pesquisador Ivan Vilela, professor da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro Cantando a Própria História: Música Caipira e Enraizamento, divide o gênero em cinco grandes fases.
A primeira vai da gravação pioneira de Jorginho do Sertão, composição do folclorista Cornélio Pires na voz da dupla Mariano e Caçula, em 1929, até a década de 1940. Como nenhuma gravadora queria gravar música caipira, Pires alugou um estúdio e pagou a prensagem do próprio bolso, segundo a pesquisadora Anita Carvalho. Para ela, foi o primeiro lançamento independente da história da música brasileira. A radiodifusão dessas canções ajudou no reenraizamento de migrantes que trocavam o campo pelas cidades grandes, e o período viu nascer a profissionalização dos cantores.
A segunda fase chegou com a música já difundida pelo rádio, alcançando cidades pequenas e zonas rurais. O maior nome, segundo Vilela, é a dupla Tonico & Tinoco, os irmãos João Salvador Perez e José Salvador Perez, que gravaram quase mil canções, lançaram 83 discos e fizeram mais de 40 mil shows. O pesquisador estima cerca de 150 milhões de discos vendidos. Nessa etapa, a vida no campo passou a ser tematizada com nostalgia, e o termo "música sertaneja" se tornou hegemônico a partir dos anos 1950, quando o gênero incorporou elementos estrangeiros, sobretudo da guarânia paraguaia e da ranchera mexicana.
O historiador Gustavo Alonso, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e autor de Cowboys do Asfalto: Música Sertaneja e Modernização Brasileira, descreve os artistas que sucedem cada fase como "modernizadores no sentido da antropofagia cultural, de incorporar valores e músicas de outras searas, de outras origens". A especialista Gisele Jordão, da ESPM, observa que o gênero passou das rotinas do trabalho agrícola e dos causos locais à dor nostálgica do migrante, depois à exaltação do heroísmo do boiadeiro e, por fim, neste século, à ênfase em paqueras, bebidas, desencontros e consumo ostentatório.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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