Quem está por trás da campanha que dissemina desconfiança da urna eletrônica às vésperas da votação?
Na reta final do primeiro turno das eleições, cresceu o volume de publicações que questionam a confiabilidade das urnas eletrônicas. O conteúdo circula em vídeos no YouTube, posts no X, anúncios no Instagram e no Facebook e mensagens encaminhadas por WhatsApp. Ao analisar quem produz e distribui esse material, a BBC News Brasil encontrou até publicações patrocinadas de candidatos e de pessoas ligadas a serviços de campanha declarados ao TSE.
A Meta anunciou que suspenderá temporariamente "a criação, a edição e a veiculação de todos os anúncios sobre temas sociais, eleições ou política direcionados ao Brasil", medida que, segundo a empresa, atende a acordo firmado com o TSE. Parte dos anúncios que colocavam dúvida sobre as urnas também foi removida. A reportagem partiu de dois levantamentos independentes. Um deles, do Instituto Democracia em Xeque (DX), identificou 1,3 mil publicações classificadas como ataques à integridade do processo eleitoral entre 15 de agosto e 20 de setembro, partidas de 873 perfis, com mais de 514 mil interações. A média passou de 23 publicações por dia em agosto para quase 50 em setembro; as interações diárias subiram de 8,4 mil para 18,6 mil. Ainda assim, os ataques representavam menos de 1% do material político analisado.
Para Marcelo Alves, diretor de metodologia e inovação do instituto e professor da PUC-Rio, a persistência dessas mensagens mantém a suspeita sobre as urnas entre apoiadores de um grupo político. Ele descreve o discurso como uma "salvaguarda discursiva", acionável diante de uma derrota eleitoral ou de decisão judicial contrária. Pesquisa Genial/Quaest de fevereiro apontou que 43% desconfiam do sistema, e a maioria dos que diziam desconfiar votou em Jair Bolsonaro no segundo turno de 2022.
O outro levantamento, da Palver, analisou mais de 100 mil mensagens em WhatsApp, X/Twitter, Instagram e Telegram. O número de mensagens cresceu, mas a proporção das que desconfiam do sistema oscilou para baixo: no WhatsApp, passou de 79% para 68%. No X, a fatia de desconfiança subiu de 22% para 30%, e a de defesa do sistema, de 4% para 13%. O CEO da Palver, Felipe Bailez, atribui parte da mudança ao avanço das mensagens em defesa das urnas e afirma que "quem desconfia da urna fala mais sobre esse assunto do que quem confia". Ele também identifica migração do alvo das críticas: os questionamentos ao funcionamento das urnas perdem espaço para a desconfiança no TSE e em seus ministros.
A discussão ganhou força em julho, quando Flávio Bolsonaro associou as eleições brasileiras à Smartmatic, fabricante de tecnologia eleitoral usada em outros países, dizendo que as máquinas brasileiras teriam a mesma origem e que um relatório da CIA mostraria envolvimento da empresa em suposto plano de fraude na Venezuela em 2012. O TSE esclareceu que a Smartmatic nunca forneceu urnas ou softwares usados no Brasil. A campanha de Flávio nega que ele tenha questionado a integridade do sistema. Entre as falas recorrentes estão as "urnas mágicas", a alegação falsa de fraude em 2022 e a possibilidade de anulação da eleição. Para Alves, o debate deste ano recicla alegações já desmentidas e adota linguagem mais insinuante após punições aplicadas desde 2022.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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