Por que o Brasil ainda não sabe quantos entregadores se acidentam no trabalho?
O Brasil ainda não consegue dimensionar quantos entregadores de aplicativo sofrem acidentes durante a jornada de trabalho. O principal obstáculo é a falta de dados oficiais que permitam identificar se uma pessoa acidentada estava trabalhando no momento da ocorrência.
Os sistemas estaduais registram acidentes de trânsito, e o Ministério da Saúde reúne notificações de atendimentos hospitalares, mas essas bases historicamente não diferenciam se os envolvidos estavam ou não em atividade profissional. No Estado de São Paulo, por exemplo, os dados do Detran mostram que acidentes fatais envolvendo ciclistas cresceram 27,8% em cinco anos, passando de 320 mortes em 2021 para 409 em 2025. O número, porém, se refere a ciclistas em geral, não especificamente a entregadores.
Para tentar preencher essa lacuna, o Ministério Público do Trabalho (MPT) criou um projeto estratégico voltado à subnotificação de acidentes entre trabalhadores plataformizados. Os formulários do sistema de saúde não registravam se a vítima trabalhava para aplicativos nem se estava em jornada no momento do acidente. Em abril de 2025, o Ministério da Saúde publicou uma nota técnica orientando profissionais de saúde a registrar essa informação. Um ano depois, porém, ainda não há estatísticas consolidadas sobre o tema.
O procurador do trabalho Rodrigo Castilho, coordenador nacional de Combate às Fraudes nas Relações de Trabalho do MPT, afirma que o órgão ainda não tem o dado compilado para saber se os registros estão sendo feitos. Ele aponta um segundo obstáculo: a opacidade das plataformas. Segundo o procurador, as empresas não fornecem informações sobre acidentes nem sobre o número de trabalhadores ativos, sob a alegação de que o algoritmo é um segredo comercial.
O setor segue em expansão. Em 2024, eram 1,7 milhão de pessoas trabalhando por aplicativos no Brasil, segundo o IBGE, com crescimento de 25,4% em dois anos. Os entregadores representam 485 mil desse total. Em março de 2024, o governo federal apresentou uma proposta de regulamentação para motoristas de aplicativo, mas os entregadores ficaram de fora das negociações, que seguem sem consenso.
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