Por que jovens chineses são tão fascinados com Mao Tsé Tung, cuja morte completa 50 anos?
Vídeos com aparições do falecido líder chinês Mao Tsé Tung estão acumulando milhões de visualizações na plataforma Bilibili, num aparente ressurgimento de sua popularidade entre jovens chineses, 50 anos após sua morte, em 9 de setembro de 1976. A base de usuários da plataforma é predominantemente jovem, com quase 60% na faixa de 18 a 24 anos.
Muitos desses jovens se referem a Mao como "Mestre" ou "Professor". As compilações reúnem cenas extraídas de filmes e séries de TV que cobrem diferentes fases de sua vida, da juventude ao período como comandante militar e líder na gestão das relações da Guerra Fria entre China, Estados Unidos e União Soviética. Os vídeos atraem milhões de visualizações e dezenas de milhares de comentários.
O interesse atual difere da narrativa com que cresceram as gerações anteriores. Em 1981, o Partido Comunista Chinês adotou uma resolução, elaborada sob a liderança de Deng Xiaoping, que equilibrava conquistas e erros de Mao, resumida na fórmula "70% conquistas, 30% erros". Nos governos de Deng Xiaoping e depois de Jiang Zemin, os retratos de Mao desapareceram gradualmente de estações ferroviárias, praças públicas e salas de aula, e ele passou a ser visto cada vez mais como figura histórica, e não como divindade.
Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, a atenção renovada está ligada a percepções sobre desigualdade de riqueza e declínio da mobilidade social. Florian Schneider, professor da Universidade de Leiden que estuda a cultura política da juventude chinesa, afirma que os jovens de hoje enfrentam realidade muito diferente da de seus pais, que viveram numa época em que o crescimento econômico parecia elevar o padrão de vida de todos. Dados do Departamento Nacional de Estatísticas da China apontam que a taxa de desemprego urbano entre jovens de 16 a 24 anos que não estudam subiu para 17,9% em julho de 2026, o nível mais alto desde a revisão da metodologia estatística três anos antes.
Termos como "996" (trabalho das 9h às 21h, seis dias por semana), "ficar deitado" e "involução" passaram ao vocabulário cotidiano. Nesse contexto, diz Schneider, as críticas de Mao ao capitalismo encontram eco em alguns jovens, que usam suas ideias para expressar insatisfação com o que consideram "a captura do Estado pelo capital". "O ressurgimento de Mao não é simplesmente nostalgia. Reflete uma tentativa dos jovens de usar uma linguagem histórica existente para nomear e processar a desigualdade e a insegurança que vivenciam", afirma o professor.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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