Por que a Espanha, que construía casas demais, vive hoje uma grave crise de moradia
A Espanha, que entre 1997 e 2008 chegou a construir cinco milhões de casas e apartamentos — cerca do dobro da demanda de mercado da época —, enfrenta hoje um déficit habitacional estimado em cerca de 750 mil residências, segundo dados do Banco da Espanha. O organismo alertou que esse número pode superar um milhão nos próximos dois anos caso não sejam adotadas as medidas necessárias.
Para especialistas, a crise financeira de 2008, deflagrada após a falência do banco Lehman Brothers, é um dos principais fatores do problema. A reviravolta, explica Carme Trilla, presidente da fundação Hàbitat3, ocorreu justamente porque o excesso de construções deixou a impressão de que se havia construído demais. O professor José García Montalvo, da Universidade Pompeu Fabra, lembra que o país passou de quase 14 residências por mil habitantes para duas por mil — quando a média em outros países é de quatro. "O setor foi dizimado", resume ele.
Enquanto a construção não se recupera, a população cresce impulsionada sobretudo pela imigração. Segundo Jorge Galindo, da Esade, são criados atualmente 250 mil lares líquidos por ano na Espanha, a maioria por migração procedente da Colômbia e da Venezuela. Se na época da bolha se construía o dobro de moradias em relação aos lares formados, hoje se constrói um terço. A oferta insuficiente somada ao aumento da demanda explica a alta dos preços: desde 2015, os valores de venda e aluguel subiram 80%, enquanto os salários aumentaram apenas 30%, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas.
O caso da aposentada Maricarmen Abascal, de 87 anos, retirada de maca do apartamento no centro de Madri onde morou de aluguel por sete décadas, reacendeu o debate. Neste sábado (3/10), milhares de manifestantes foram às ruas em toda a Espanha exigindo maior proteção aos inquilinos, após o governo não conseguir aprovar no parlamento, na sexta-feira (2/10), uma legislação emergencial sobre habitação. Em 2024, uma em cada quatro famílias espanholas afirmava ter problemas para conseguir ou manter seu teto, segundo relatório da FOESSA. Atualmente, 47,3% dos jovens de 26 a 34 anos continuam morando com os pais por não terem condições de comprar ou alugar moradia.
O porta-voz do Sindicato das Inquilinas e Inquilinos de Sevilha, Jaime Jover, atribui parcela importante de responsabilidade aos fundos de investimento, que, segundo ele, se beneficiam de incentivos fiscais e aquecem o mercado. García Montalvo, porém, relativiza: os fundos detêm cerca de 5% do mercado, e a maior parte das residências pertence a pequenos proprietários. Cerca de 2,4 milhões de espanhóis possuem casas e apartamentos alugados, segundo o Observatório do Aluguel, e muitos têm optado por aluguéis de curta duração a turistas, reduzindo a oferta disponível.
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