Perdoar e amar enquanto há tempo: o que a morte pode nos ensinar sobre a vida
O jornalista e teólogo em formação Caio Castro Lima propõe, em seu novo livro, uma mudança de perspectiva sobre a finitude: em vez de pensar apenas no fim da vida, refletir sobre a maneira como se vive até lá. “A morte é a vida, né? Ela é uma etapa da vida”, afirma Lima, que há três anos atua voluntariamente como ministro extraordinário da Consolação e Esperança, serviço religioso de acolhimento a famílias enlutadas em cemitérios do Rio de Janeiro.
A experiência de acompanhar velórios, somada aos estudos de teologia e de cuidados paliativos, o levou a compreender melhor os medos e as necessidades de quem enfrenta uma perda. Para o autor, falar sobre a morte é também uma oportunidade de repensar escolhas, relacionamentos e prioridades. A consciência de que o tempo é limitado pode ajudar a construir relações mais saudáveis, abandonar ressentimentos e atribuir mais sentido ao cotidiano. “Você passa a dar sentido melhor ou buscar um novo sentido ao longo da sua vida, de servir a Deus, de tentar lidar melhor com o seu irmão, de perdoar, de entender o que que de fato é amar”, diz.
Essa preparação, na visão de Lima, não acontece de uma só vez: é uma construção diária, que envolve reconhecer que não temos controle sobre tudo e aprender a conviver com as próprias limitações. A fé tem papel importante, mas o processo também passa pela disposição de conversar, expressar sentimentos e cultivar relações de confiança. A importância de resolver mágoas enquanto há tempo ganhou significado pessoal quando seu pai morreu, durante a pandemia de Covid-19, após um acidente vascular cerebral (AVC), sem que ele conseguisse chegar a tempo para a despedida. “Eu tive momentos de alegrias com meu pai, mas tive momentos de desentendimentos que criaram algumas mágoas, alguns afastamentos”, conta. A saída que encontrou foi trabalhar o perdão, inclusive em relação a si mesmo. Para o autor, perdoar não significa necessariamente retomar uma relação, mas deixar de carregar o peso da mágoa, da raiva e do desejo de vingança.
Se a preparação começa antes da perda, o cuidado com quem fica exige respeitar o tempo e a dor de cada pessoa. Na experiência de Lima, uma das atitudes mais importantes é não oferecer respostas prontas para um sofrimento que nem sempre pode ser aliviado por palavras. “Não há palavra ou conselho que vai ajudar a pessoa naquele momento de sofrimento. A pessoa precisa passar por isso, ela tem que viver aquele período de luto”, afirma. Em vez de buscar uma solução imediata, ele recomenda acolher, ouvir e permanecer ao lado de quem sofre.
O autor também se dedica ao estudo dos cuidados paliativos, que buscam oferecer qualidade de vida e aliviar o sofrimento de pessoas com doenças graves. Nesse contexto, expressar desejos, medos e necessidades pode ajudar tanto o paciente quanto seus familiares, preservando a autonomia e fortalecendo os vínculos. As reflexões foram reunidas no livro A Morte é um Canto Gregoriano – É Preciso Entendê-la para não Temê-la, publicado pela Juruá Editora, com 102 páginas. Na obra, Lima aborda luto, saudade, perdão, envelhecimento, cuidados paliativos e dignidade no fim da vida, combinando experiência pessoal e referências à tradição cristã. Ao resumir o que considera essencial, o autor volta às duas atitudes que atravessam sua reflexão: amar e perdoar.
Esta matéria foi publicada primeiro em Brasil · Gazeta do Povo e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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