Papa no Uruguai, Argentina e Peru: como a Igreja Católica tem se posicionado na América Latina?
O papa Leão 14º desembarcou no Uruguai na tarde desta sexta-feira (6/11), iniciando um giro de 11 dias por Uruguai, Argentina e Peru. É o retorno dele à América Latina três anos depois de deixar Chiclayo, no Peru, e se transferir para Roma, quando ainda era conhecido como bispo Robert Prevost e foi chamado pelo papa Francisco (1936-2025) para chefiar um dicastério, um dos departamentos do Vaticano.
O retorno ocorre em um continente marcado pela polarização política. Nos últimos anos, uma onda de políticos de direita e de extrema-direita venceu eleições na região — inclusive no Peru, que tem desde julho a presidente Keiko Fujimori, sucedendo um governo de esquerda. O cenário também está inflamado pela vitória do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Brasil, em campanha marcada por polêmicas religiosas, e pela diminuição do poder do partido de Donald Trump nas eleições deste mês nos EUA, o que pode influenciar a política latino-americana.
A Igreja Católica é historicamente diversa e oficialmente não toma posições partidárias, mas a participação de conferências episcopais no debate político parece fazer a balança pender para o lado esquerdo na América Latina — comportamento reforçado pelo fato de a região ter sido o terreno fértil da Teologia da Libertação, vertente católica progressista empenhada em transformações sociais. No mês passado, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicou uma carta sobre a importância do momento político, ressaltando valores como cuidar do meio ambiente e garantir os direitos humanos. Um grupo de 64 bispos também divulgou manifesto que, sem citar candidatos diretamente, fazia referência negativa ao então postulante Flávio Bolsonaro (PL) e dizia que “um dos candidatos promete liberar o acesso amplo a armas, como fez o seu pai em seu governo”. Na Argentina, em março de 2024, três meses após o ultradireitista Javier Milei assumir a presidência, a Conferência Episcopal Argentina publicou alerta sobre como a política de cortar gastos afetaria drasticamente a vida dos mais pobres.
Especialistas, contudo, afirmam que não é possível classificar a Igreja Católica, nem suas conferências nacionais, como alinhada à esquerda ou à direita. “É difícil classificar a hierarquia católica latino-americana como um bloco de direita ou de esquerda. No Brasil, por exemplo, a CNBB funciona como um espaço de negociação entre diferentes sensibilidades eclesiais”, diz a socióloga Tabata Tesser, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião. Para ela, existe um centro institucional influente que tende a posições moderadas e, em questões sociais, se aproxima de pautas progressistas, como o combate à pobreza e a defesa dos direitos humanos, enquanto em questões morais e comportamentais assume posições mais conservadoras. O historiador Carlos André Silva de Moura, professor da Universidade de Pernambuco (UPE), afirma que “é muito difícil classificar uma instituição assim complexa a partir de espectros políticos divergentes”.
Sobre o roteiro do papa, o historiador observa que a Argentina pode ser classificada hoje como ligada a uma extrema-direita, com política extremamente liberal e forte crise econômica; o Uruguai é governado por uma centro-esquerda, com uma frente popular ampla; e o Peru, onde Leão 14º encontrará Keiko Fujimori, tem uma tradição política que vem de seu pai, o ex-ditador Alberto Fujimori (1938-2024). Moura diz que o catolicismo latino-americano “tem uma tendência não de esquerda ou de direita, mas progressista, para os pobres, devido à sua constituição histórica, social e política”, e que as ditaduras fizeram com que grupos pudessem ter uma visão mais progressista. O vaticanista Filipe Domingues, professor na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, lembra que “a universalidade da mensagem” permite que pessoas com visões ideológicas diferentes façam parte da mesma religião.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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