Os protestos em massa em Madri provocados por despejo de idosa de 87 anos de apartamento alugado
Milhares de pessoas foram às ruas no centro de Madri neste fim de semana para protestar contra o despejo de uma idosa de 87 anos do apartamento onde vivia como inquilina, episódio que expôs a crise de moradia na Espanha. Segundo números do governo, cerca de 25 mil pessoas se manifestaram no sábado na capital, e aproximadamente 500 acamparam na Puerta del Sol, uma das praças mais movimentadas da cidade.
Os manifestantes montaram barracas em frente à sede do governo regional de Madri e anunciaram a intenção de permanecer no local até que as autoridades atendam às reivindicações sobre habitação. Com faixas como "Todos somos Maricarmen", "Expropriar os rentistas" e "Ação direta e ocupação", além de bandeiras da Palestina e símbolos de sindicatos e movimentos, os participantes organizaram assembleias, oficinas, discursos e apresentações musicais. O Sindicato dos Inquilinos de Madri, que defende a proibição da compra de imóveis por quem não vai residir neles, divulgou o lema: "Ou o rentismo cai ou o governo cai". As críticas se dirigem ao governo nacional e às autoridades regionais e municipais.
O estopim foi o despejo de María del Carmen Abascal, conhecida como Maricarmen, que na quarta-feira passada teve de deixar o apartamento em Madri onde vivia de aluguel havia sete décadas. Os tribunais consideraram encerrado o contrato de 1956 que ela havia herdado dos pais e deram razão à Urbagestión, empresa proprietária do imóvel, que buscava recuperá-lo.
As mobilizações ocorrem em um momento de alta nos preços de compra e aluguel de imóveis na Espanha, especialmente nas grandes cidades. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, os preços subiram 12,2% na comparação anual no segundo trimestre de 2026 e 12,9% na Comunidade de Madri. Entre 2021 e 2025, foram construídas 750 mil moradias a menos do que o necessário para atender à demanda, segundo dados do Banco da Espanha.
O Sindicato dos Inquilinos exige contratos por prazo indeterminado ou renovação automática, congelamento dos aluguéis, proibição de despejos sem oferta de moradia alternativa e punição ou proibição de aluguéis por temporada e por quartos, além da expropriação de imóveis de empresas e fundos de investimento que chama de "fundos abutres". Alguns economistas questionam as propostas e defendem que aumentar a oferta de moradias é o único remédio para a escassez, alertando que limitar aluguéis e impedir a recuperação de imóveis pode agravar a situação. O presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, afirmou que trabalha para levar um decreto sobre moradia ao Conselho de Ministros na próxima terça-feira. A vice-presidente Yolanda Díaz apoiou a mobilização e pediu medidas contra os fundos imobiliários. A porta-voz do Sindicato dos Inquilinos, Alicia del Río, advertiu que o acampamento continuará caso o decreto não inclua contratos por prazo indeterminado, e a organização pediu às centrais CCOO e UGT que convoquem greve geral se a norma não for aprovada. O Partido Popular apresentou propostas alternativas, e a Prefeitura de Madri criticou o acampamento e acusou o governo central de "omissão de funções". Protestos também foram registrados em Barcelona, Alicante e Santiago de Compostela, e, segundo a imprensa espanhola, foram convocados atos em 40 cidades do país.
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