Os negócios 'petistas' alvo de boicote após vitória de Lula: 'Virei o pior cabeleireiro do mundo por ser de esquerda'
Após a eleição, profissionais autônomos e donos de pequenos negócios que declararam voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passaram a ser alvo de retaliações de clientes que apoiam o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O movimento surgiu na última segunda-feira (26/10), sobretudo em cidades onde Lula não obteve a maioria dos votos, mas também chegou a metrópoles como São Paulo, onde circulam, por redes sociais e grupos de WhatsApp, listas que incentivam boicotes a bares, restaurantes, manicures, personal trainers e outros estabelecimentos e profissionais.
O cabeleireiro Alex Santos, que vive e trabalha em Joinville (SC), diz ter comemorado a vitória de Lula em seu perfil pessoal no Instagram, sem publicações na conta profissional. Segundo ele, uma cliente que o seguia nas duas contas enviou mensagem à dona do salão afirmando que era um absurdo ele ser esquerdista e que ele jamais tocaria no cabelo dela novamente. Na terça, outra cliente ligou perguntando se o salão era de esquerda ou de direita. "A partir do momento em que decidi falar que eu sou de esquerda, virei o pior cabeleireiro do mundo", afirma. Ele pondera que os chefes não tomaram partido e ofereceram outros profissionais às clientes, mas avalia que a situação pode se agravar: "cerca de 90% das minhas clientes são bolsonaristas, são de direita".
Em Joinville, cidade a cerca de 180 quilômetros de Florianópolis, Flávio obteve 73,82% dos votos válidos, contra 26,18% de Lula, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) compilados pela BBC News Brasil. A BBC teve acesso a listas de boicote, que não são reproduzidas na reportagem para evitar a exposição dos comércios e profissionais sem autorização.
Os profissionais afetados se perguntam se promover uma lista de boicote é liberdade de expressão ou configura crime. Para o professor de direito do trabalho da USP Guilherme Guimarães Feliciano, não há problema em rejeitar mercadorias ou serviços nem em sugerir que outros façam o mesmo: "é liberdade de expressão e consumo". O advogado Gustavo Ramos, mestre em Direito das Relações Sociais e Trabalhistas, compara o cenário a boicotes motivados por posições públicas de empresas, mas aponta diferenças. "A diferença está no critério: conduta da empresa versus opinião política de quem está por trás dela", diz. Ele lembra que o voto não é público e que a opinião política é dado pessoal sensível à luz da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), de modo que compilar e divulgar esse tipo de informação sem autorização é ilícito por si só.
Feliciano acrescenta que listas desse tipo contrariam o sigilo do voto e a garantia constitucional de que ninguém será privado de direitos por convicção política. "Quando a expressão vira instrumento de intimidação e exclusão, deixa de ser mero exercício de liberdade e passa a ser conduta comissiva contra um indivíduo ou um grupo", afirma. Segundo os especialistas, quem cria ou compartilha as listas pode ser enquadrado em crimes como perseguição (stalking), ameaça, constrangimento ilegal, difamação, injúria e incitação ao crime, dependendo do conteúdo. Ramos ressalta que a lista que apenas associa nomes a um voto presumido dificilmente configura crime, mas que a prática tem vindo acompanhada de outros elementos, e que quem compartilha com o propósito de prejudicar responde da mesma forma que o autor.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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