O que leva pessoas comuns obedecerem ordens imorais — e como resistir
Em junho de 1961, um anúncio no jornal The New Haven Register, em Connecticut, recrutava voluntários para um suposto estudo de memória na Universidade Yale, com pagamento de US$ 4 por uma hora de participação. Quarenta homens participaram do teste inicial. Em uma tarefa aparente de aprendizado de palavras, pediu-se que aplicassem choques elétricos em um estranho até um nível potencialmente letal. A maioria — 26 dos 40, ou 65% — chegou ao choque máximo. Os participantes não sabiam que os choques eram simulados e que o experimento, conduzido por Stanley Milgram (1933-1984), investigava obediência e crueldade.
Versões modificadas e mais suaves do estudo seguiram sendo aplicadas por pesquisadores. Em 2009, Jerry Burger, da Universidade de Santa Clara, interrompeu os voluntários em um choque falso mais fraco: 70% obedeceram até o fim, sem diferenças significativas entre homens e mulheres. Em 2015, Tomasz Grzyb, da Universidade SWPS, na Polônia, registrou 90% de obediência até o final, também sem diferenças entre gêneros. "Gostamos de pensar em nós como pessoas morais e independentes, que resistiriam a uma ordem que estivesse em conflito com os nossos valores", afirmou Grzyb. "Mas as evidências indicam que devemos ter muito menos certeza disso."
A professora Emilie Caspar, da Universidade de Ghent, na Bélgica, estuda como a obediência influencia a atividade cerebral. Em experimentos com choques reais e toleráveis, ela observou que, ao cumprir ordens, regiões associadas à empatia, à culpa e ao livre-arbítrio apresentam menos atividade do que quando a decisão é livre. Dos cerca de 800 voluntários de diferentes países, apenas 21 (2,6%) se recusaram a aplicar choques. Segundo Caspar, obedecer parece mais fácil do que resistir, porque empatia, culpa e livre-arbítrio são processos cerebrais que exigem energia.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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