O que aconteceu com o experimento de Bukele para transformar El Salvador no 'país do bitcoin'
Em setembro de 2021, El Salvador se tornou o primeiro país do mundo a adotar o bitcoin como moeda de curso legal, ao lado do dólar americano. A medida foi anunciada pelo presidente Nayib Bukele meses antes, durante a conferência Bitcoin 2021, em Miami, e aprovada pela Assembleia Legislativa, controlada pelo partido Novas Ideias. A promessa era de que a criptomoeda traria "prosperidade, liberdade econômica e inclusão financeira" ao país.
Cinco anos depois, o cenário é outro. O dólar voltou a ser a única moeda oficial de El Salvador, e a aceitação do bitcoin passou a ser facultativa. A promessa de construir uma cidade futurista, abastecida pela energia geotérmica do vulcão Conchagua e dedicada à mineração da criptomoeda, nunca saiu do papel. Os chamados "títulos vulcão", que seriam emitidos no mercado internacional com lastro na criptomoeda para financiar a chamada Bitcoin City, também não avançaram.
Para viabilizar o projeto, o governo criou um fundo de US$ 150 milhões e ofereceu US$ 30 a cada cidadão que instalasse a carteira digital Chivo no celular. Outros US$ 50 milhões foram destinados à instalação de caixas eletrônicos e aos demais custos de implementação. A expectativa oficial era reduzir os custos de envio de dinheiro por salvadorenhos no exterior — fonte que representou 26,3% do PIB do país em 2025, segundo o Banco Central de Reserva —, facilitar o acesso de trabalhadores informais ao sistema financeiro e atrair investimentos estrangeiros.
A adesão, no entanto, ficou muito abaixo do esperado. Nove meses após a adoção, pesquisa do Instituto Universitário de Opinião Pública (Iudop), da Universidade Centro-Americana José Simeón Cañas (UCA), mostrou que 71% dos entrevistados afirmaram que a criptomoeda não havia trazido "nenhum benefício para a economia familiar". Um relatório do Escritório Nacional de Pesquisas Econômicas (NBER) publicado em abril de 2022 constatou que a maioria das pessoas que instalou a carteira Chivo deixou de usá-la depois de gastar o bônus oferecido pelo governo. Em 2022, pesquisa da CID-Gallup apontou que apenas 1 em cada 5 empresas aceitava bitcoin e que somente 5% dos pagamentos de impostos eram feitos com a criptomoeda.
O economista Carlos Acevedo, ex-presidente do Banco Central de Reserva de El Salvador, afirmou à BBC News Mundo que, considerando os motivos apresentados por Bukele para adotar o bitcoin, o projeto fracassou. Segundo ele, o governo esperava que toda a população estivesse usando a criptomoeda, mas a desconfiança da população já aparecia em pesquisas anteriores. Bukele, por sua vez, seguiu comprando bitcoin com dinheiro público mesmo diante de alertas sobre os riscos para as finanças do país, em meio à forte oscilação do preço da criptomoeda, que perdeu mais de 60% de seu valor em 2022.
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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