Como França foi além do combate à desinformação para aumentar cobertura vacinal: 'Vale mais vacina no braço que mente convencida'
A França conseguiu aumentar a cobertura vacinal nos últimos anos ao combinar mudanças na lei com medidas práticas de acompanhamento, e não apenas com campanhas contra a desinformação. O país, historicamente um dos que registravam as maiores taxas de hesitação vacinal do mundo, alterou sua legislação em 2018 e, desde então, viu os índices de imunização subirem.
Antes da mudança, a França tinha três vacinas obrigatórias para crianças — contra difteria, tétano e poliomielite — e outras oito apenas recomendadas, entre elas as que protegem contra coqueluche, hepatite B, sarampo, caxumba, rubéola, infecções por pneumococo e meningococo C. Segundo especialistas, essa divisão gerava confusão, e muitas famílias entendiam que a recomendação não se aplicava aos filhos. A lei que passou a valer em 2018 tornou todas as 11 vacinas obrigatórias.
No mesmo ano, o país criou mecanismos para checar e garantir a vacinação infantil. A comprovação passou a ser exigida para a matrícula e a permanência de crianças em escolas, creches e outras atividades coletivas. A brasileira Fabiela Bigossi, que vive na França há 11 anos, relata que a diretora da creche de sua filha mantém o calendário vacinal de cada criança e cobra a caderneta atualizada, sob risco de a criança deixar de ser acolhida.
Em 2018, um grupo de pesquisadores alertou que reforçar a obrigatoriedade poderia ter efeito contrário e aumentar a polarização. "Nós claramente estávamos errados, não foi isso que aconteceu", admite o sociólogo Jeremy Ward, do Instituto Nacional da Saúde e Pesquisa Médica da França, um dos autores do artigo. Para várias vacinas, a cobertura está acima da meta considerada ideal para a imunidade de rebanho; para outras, a porcentagem de vacinados praticamente dobrou de um ano para outro, embora ainda não tenha atingido o ideal.
Sandrine Randriamampianina, da agência nacional de saúde pública francesa, afirma que as mudanças não surgiram do nada e foram resultado de uma consulta pública. A experiência francesa é apontada como exemplo de que aumentar as taxas de vacinação vai muito além de combater notícias falsas nas redes sociais. No Brasil, as coberturas vacinais infantis começaram a cair a partir de 2015 e se agravaram na pandemia de covid-19, com recuperação recente em alguns imunizantes.
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