O apagamento histórico do Império e o nascimento de nossa tragédia
O Chafariz do Carmo, no centro do Rio de Janeiro, é apontado como exemplo do apagamento da história do Brasil monárquico. A obra, concluída em 1789, foi construída por Valentim da Fonseca e Silva, o Mestre Valentim, um dos principais artistas do Rio colonial. Mulato, filho de um português e de uma mulher escravizada, ele atuou como escultor, entalhador, ourives e projetista, com papel relevante nas reformas urbanas do período.
O chafariz, em estilo barroco, tinha função prática: abastecer de água a população e as embarcações que chegavam ao porto. Foi ao lado dele, em uma pequena escadaria, que dom João VI e a família real portuguesa desembarcaram em 7 de março de 1808 para estabelecer a sede da monarquia portuguesa. Sete anos depois, o Brasil seria elevado à condição de Reino, e o Rio se tornaria capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.
Segundo o texto, nada disso é informado no local. O chafariz está desativado e, conforme a publicação, permanece como monumento ignorado em meio a outros igualmente ignorados na praça. A própria renomeação da praça, que se chamava Dom Pedro II, é descrita como parte do projeto de apagamento promovido pelos republicanos após o golpe, com o objetivo de contar a história do país a seu modo.
A publicação cita o historiador José Murilo de Carvalho, autor de A formação das almas, para quem foi grande o esforço de transformação dos participantes do 15 de novembro em heróis do novo regime, com virtudes cantadas em prosa e verso, livros, jornais, manifestações cívicas, monumentos, quadros e leis. Nomes foram dados a instituições, ruas, praças e navios de guerra.
O texto afirma que, por ter sido um golpe quase tímido e sem apelo popular, o novo regime precisou reformar o imaginário da população e imprimir nele seus símbolos. Conforme a publicação, os republicanos fizeram isso não só difundindo seus símbolos, mas destruindo vestígios da antiga ordem. O relato também menciona o Paço Imperial, onde ocorreu o Dia do Fico e foi assinada e anunciada a Lei Áurea, e diz que o local não traz informação a esse respeito, tendo sido transformado em sede dos Correios após o golpe, com destruição da decoração interna original e reformas que modificaram sua estrutura.
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