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Nossa Senhora Aparecida conecta fé e identidade brasileira no 12 de outubro

Por Ivan Marra
Atualizado em 12/10/2026 às 11:04 schedule 9 min de leitura visibility 17 visualizações share 2 compartilhamentos (1)
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O Brasil celebra nesta segunda-feira, 12 de outubro, Nossa Senhora Aparecida e o Dia das Crianças. As duas comemorações nasceram em momentos diferentes, mas compartilham uma data que reúne experiências de fé, encontros familiares e atenção à infância. O feriado nacional é dedicado à padroeira do país, conforme a Lei nº 6.802, de 1980; a celebração das crianças havia sido instituída pelo Decreto nº 4.867, de 1924. [3, 4]

Para os devotos, Aparecida representa uma presença materna associada à confiança e à proteção. Sua importância também pode ser observada na história brasileira: a devoção começou em uma comunidade de pescadores e se expandiu até alcançar reconhecimento nacional. Compreender essa trajetória ajuda a distinguir a experiência religiosa de seu significado cultural, preservando o respeito às pessoas que seguem outras tradições ou não professam uma religião. [1, 2, 5]

Uma devoção que nasceu junto ao trabalho cotidiano

A história preservada pelo Santuário Nacional situa o encontro da imagem em outubro de 1717, no rio Paraíba do Sul, na região de Guaratinguetá, no interior paulista. Os pescadores envolvidos foram João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia. [1]

Segundo essa narrativa, os trabalhadores recolheram primeiro o corpo e depois a cabeça de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. A tradição católica relata que uma pesca abundante ocorreu em seguida, episódio interpretado pelos fiéis como um milagre. O nome Aparecida está ligado à imagem encontrada nas águas. [1]

As primeiras reuniões de oração aconteceram em ambiente doméstico. A expansão da devoção levou à construção de um templo inaugurado em 1745. A passagem da casa ao espaço coletivo mostra como o culto se desenvolveu por meio dos vínculos de uma comunidade, antes dos grandes marcos institucionais. [1]

Da devoção popular ao reconhecimento nacional

A imagem foi coroada em 8 de setembro de 1904. Em julho de 1930, o papa Pio XI declarou Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil. Esses marcos formalizaram, no âmbito da Igreja Católica, uma devoção que já havia ultrapassado a região onde surgiu. [2]

O reconhecimento do dia 12 de outubro como feriado nacional veio em 1980. A lei que o instituiu consagra expressamente a data a Nossa Senhora Aparecida. Por isso, embora as crianças sejam homenageadas no mesmo dia, a origem jurídica do feriado está vinculada à padroeira. [3]

A presença materna atribuída a Maria ocupa lugar central nessa relação. Em texto dos Missionários Redentoristas, a imagem negra de Aparecida é apresentada como expressão de proximidade com os pobres e com a população negra. Trata-se de uma leitura religiosa e cultural que associa a devoção ao reconhecimento de pessoas historicamente marginalizadas. [5]

Para os devotos, o valor da imagem está ligado às histórias de família e às experiências de pertencimento. A imagem reúne memória coletiva e fé pessoal. [5]

A espiritualidade e a busca por sentido

Religião, religiosidade e espiritualidade são conceitos relacionados, com significados diferentes. A literatura em psicologia discute a religião como um sistema organizado de crenças, ritos e práticas; a religiosidade, como a relação de uma pessoa com esse universo; e a espiritualidade, como uma busca por sentido para a existência, que pode ou não estar vinculada a uma instituição religiosa. [6]

Essa distinção permite compreender experiências diversas. Uma pessoa pode encontrar sentido na oração e na participação em uma comunidade. Outra pode expressar essa busca por meio da reflexão, de suas relações ou do compromisso com valores que considera fundamentais. As definições variam entre autores e contextos, e não existe uma única forma de vivenciar essa dimensão. [6]

No caso de Aparecida, a relação entre fé e experiência pessoal aparece, por exemplo, na Sala das Promessas. Segundo a programação divulgada pelo Santuário para os dias 11 e 12 de outubro de 2026, o espaço recebe objetos que representam a gratidão dos peregrinos e também acolhe momentos de escuta, oração e bênção. Esses testemunhos registram o significado que os próprios devotos atribuem aos acontecimentos de suas vidas. [10]

Um símbolo católico em um Brasil de diferentes crenças

Os resultados preliminares de religiões do Censo Demográfico de 2022, divulgados pelo IBGE em 2025, mostram a dimensão dessa diversidade. Entre as pessoas de dez anos ou mais, 56,7% se declararam católicas, 26,9% evangélicas e 9,3% sem religião. O levantamento também contempla espíritas, religiões de matriz africana, tradições indígenas e outras religiosidades. [7]

Esses percentuais se referem à população e ao período investigados pelo Censo, e não a uma medição realizada em 2026. Além disso, a declaração de pertencimento religioso, isoladamente, não descreve todas as formas pelas quais alguém constrói sua espiritualidade. A categoria sem religião também não permite presumir uma experiência pessoal única. [7, 6]

A Constituição assegura a liberdade de consciência e de crença e estabelece limites às relações do poder público com instituições religiosas. Nesse marco, o reconhecimento histórico de Aparecida convive com o direito de celebrar outras tradições, mudar de religião ou não adotar uma crença. A proteção constitucional alcança todos esses cidadãos. [8]

A celebração de 2026 e o compromisso com a convivência

Neste ano, a Novena e Festa da Padroeira adotou o tema “Com Maria, em comunidade, conhecer e praticar a Palavra”. A formulação, divulgada pelo Santuário, relaciona a experiência religiosa à vida compartilhada e à prática dos ensinamentos cristãos. [9]

A proposta também apareceu em ações materiais. A programação dos últimos dias da novena incluiu arrecadação de alimentos, como arroz, óleo e feijão. Em 10 de outubro, a reflexão foi dedicada à justiça social como compromisso de amor e de paz, conforme informou a assessoria de imprensa do Santuário. [10]

O contexto nacional acrescenta outra dimensão à data. Pelo calendário do Tribunal Superior Eleitoral, o primeiro turno das eleições gerais ocorreu em 4 de outubro, e o eventual segundo turno está previsto para 25 de outubro. A homenagem à padroeira acontece, portanto, durante um período de debate sobre os rumos do país. [11]

A defesa da convivência foi abordada na própria novena. Em 5 de outubro, o bispo de Petrolina, Dom Antônio Carlos Cruz Santos, refletiu sobre paz e reconciliação e defendeu que as religiões sejam instrumentos de paz. Segundo o relato do A12, ele convidou os fiéis à não violência ativa e a evitar responder ao ódio com mais hostilidade. [12]

O encontro da data com os direitos das crianças

O Dia das Crianças foi instituído em 5 de novembro de 1924, quando o Decreto nº 4.867 definiu o dia 12 de outubro para a celebração em todo o território nacional. A data tem, portanto, uma história própria, anterior à criação do feriado dedicado a Aparecida. [4]

A homenagem à infância também encontra uma referência no artigo 227 da Constituição. O dispositivo atribui à família, à sociedade e ao Estado o dever de assegurar, com “absoluta prioridade”, os direitos de crianças, adolescentes e jovens, incluindo saúde, educação, alimentação e convivência familiar, além da proteção contra violência e exploração. [8]

Os dados disponíveis mostram a dimensão desse compromisso. Um estudo do UNICEF divulgado em janeiro de 2025 apontou que, em 2023, 28,8 milhões de crianças e adolescentes de zero a 17 anos viviam em pobreza multidimensional no Brasil, o equivalente a 55,9% dessa população. Em 2017, eram 34,3 milhões, ou 62,5%. Houve redução no período, embora o problema ainda atingisse mais da metade do grupo estudado. [13]

O indicador reúne privações que vão além da renda, considerando dimensões como educação, água, saneamento, moradia e proteção contra o trabalho infantil. Esses números retratam o período analisado pelo relatório, não a situação medida neste outubro de 2026. Sua contribuição é mostrar por que a atenção à infância precisa considerar as condições em que meninas e meninos vivem. [13]

O cuidado como ponto de aproximação

A conexão entre as duas celebrações pode ser compreendida no plano simbólico: a figura materna venerada pelos católicos remete ao acolhimento, enquanto a homenagem às crianças dirige a atenção às necessidades de quem depende de proteção e acompanhamento. Essa aproximação permite discutir o cuidado sem atribuir a toda a população uma mesma crença. [5]

Para os fiéis, a devoção pode encontrar expressão tanto na oração quanto nas ações de solidariedade propostas pela comunidade. Para a sociedade, os direitos da infância constituem um compromisso comum, assegurado independentemente da religião das famílias. A celebração religiosa e a responsabilidade pública mantêm seus sentidos próprios e podem se encontrar na atenção às pessoas. [8, 10]

Neste 12 de outubro, a trajetória de Aparecida oferece elementos para compreender como a fé participa da memória brasileira. Ao lado dela, o Dia das Crianças traz para o presente a discussão sobre a proteção da infância. As duas datas colocam em evidência experiências de pertencimento e responsabilidades de cuidado que continuam presentes na vida do país.

Fontes

1. Santuário Nacional de Aparecida — História da devoção e encontro da imagem em 1717. Acessar fonte

2. Santuário Nacional de Aparecida — Coroação e título de Padroeira do Brasil. Acessar fonte

3. Câmara dos Deputados — Lei nº 6.802 de 30 de junho de 1980. Acessar fonte

4. Câmara dos Deputados — Decreto nº 4.867 de 5 de novembro de 1924. Acessar fonte

5. A12 e Missionários Redentoristas — A presença materna de Aparecida na vida do povo brasileiro. Acessar fonte

6. Psicologia Ciência e Profissão — A Abordagem da Espiritualidade e Religiosidade no Contexto Clínico da Psicologia. Acessar fonte

7. IBGE — Censo Demográfico 2022 Religiões Resultados preliminares da amostra. Acessar fonte

8. Senado Federal — Constituição Federal artigos 5º inciso VI 19 inciso I e 227. Acessar fonte

9. A12 — Livreto da Novena e Festa da Padroeira 2026 e tema oficial. Acessar fonte

10. Assessoria de Imprensa do Santuário Nacional — Últimos dias da Novena antecedem a Festa da Padroeira 2026. Acessar fonte

11. Tribunal Superior Eleitoral — Principais datas do calendário eleitoral de 2026. Acessar fonte

12. A12 — Terceiro dia da Novena Solene de 2026 e reflexão sobre paz e reconciliação. Acessar fonte

13. UNICEF — Estudo sobre pobreza multidimensional na infância e adolescência de 2017 a 2023 divulgado em janeiro de 2025. Acessar fonte

Fontes consultadas em 12 de outubro de 2026.

Esta matéria foi produzida pela redação do portal, com apuração e tratamento editorial próprios.

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