'Meus pais escolheram morrer juntos — e eu fiquei sozinho com o luto'
Em uma manhã de junho de 2024, Bas parou ao lado do motorhome dos pais, estacionado em uma marina no norte da Holanda. Jan e Els, com mais de 70 anos, haviam passado a maior parte da vida de casados na água, mas já não conseguiam administrar uma casa flutuante. O motorhome, perto dos iates, era a alternativa possível. Bas ligou o motor. Seria a última vez que levaria os pais a algum lugar: às 10h30 daquela manhã, médicos administrariam a medicação letal aos dois, juntos, em um procedimento conhecido na Holanda como eutanásia em dupla.
Três dias antes, o casal havia dado entrevista à BBC na van. Jan convivia com dores constantes, sequelas de anos transportando cargas pelas vias navegáveis interiores do país. Els havia sido diagnosticada com demência. No trajeto até o centro de cuidados paliativos, Bas planejou um percurso panorâmico pelos prados e canais da Frísia. A mãe estava resoluta; o pai, emocionado, perguntou ao filho se faziam a coisa certa. Bas o tranquilizou. Depois, seguiram em silêncio, ouvindo música.
Nos meses anteriores, Bas tentou persuadir os pais a adiar a decisão. Embora considerasse o pedido correto, não queria que partissem. Se Els esperasse mais, corria o risco de o Alzheimer se agravar e ela deixar de ser considerada capaz de decidir sobre a própria vida. No centro de cuidados paliativos, familiares e amigos passaram pelas duas horas seguintes relembrando histórias e ouvindo música. Pouco antes das 10h30, os médicos chegaram. O casal estava deitado lado a lado, de mãos dadas. "Eu os vi talvez três ou quatro vezes em toda a minha vida caminhando de mãos dadas", disse Bas. "Mas agora eles estavam ali, de mãos dadas. E isso me deu uma sensação muito boa — eles estão realmente fazendo isso juntos."
Após os pais pararem de respirar, Bas foi tomado pela tristeza e por uma profunda solidão. "O luto é algo muito, muito profundo de se vivenciar, e eu não tenho irmãos nem irmãs — eu realmente me senti sozinho", afirmou. O sofrimento também foi físico: ele se sentiu mal por quatro ou cinco semanas, com dores no corpo. "Talvez tenha sido a melhor opção para eles, mas tê-los perdido ao mesmo tempo foi muito, muito impactante."
Na Holanda, 9.958 pessoas optaram pela eutanásia em 2024, segundo os Comitês Regionais de Revisão da Eutanásia. Desse total, 427 tinham demência — seis em estágio avançado. Naquele ano, 108 pessoas optaram pela eutanásia em dupla (54 pares) e faleceram no mesmo ano. Além de comprovar sofrimento insuportável, os pacientes precisam ser avaliados por médicos e considerados capazes de decidir por si mesmos. Para a geriatra e especialista em ética Rozemarijn van Bruchem, do Centro Médico Erasmus, em Roterdã, pacientes com demência enfrentam uma ansiedade particular: "Eles pensam: eu tenho esse poder agora, mas agora é cedo demais. Mas talvez no mês que vem seja tarde demais."
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
Continue neste assunto
Comentários nesta matéria
Comentário público sobre este texto. Após envio, a redação analisa antes de publicar. Para proposta de pauta ou assuntos privados, use mensagem à redação na sua conta.
Ainda não há comentários publicados nesta matéria.
Sua avaliação desta matéria
Clique nas estrelas para avaliar — pediremos que entre com seu e-mail.
Entre com seu e-mail para comentar nesta matéria (enviamos um link rápido, sem cadastro longo).
Entrar para comentar