Em áudio | 'Um dos grandes mistérios da ciência': o que a anestesia geral revela sobre o cérebro
A anestesia geral, que permite desligar temporariamente a consciência de qualquer pessoa, em qualquer lugar, segue como um dos grandes mistérios da ciência. Ainda não se sabe ao certo como esses medicamentos colocam o paciente para dormir, mas as novas indicações que surgem a partir do seu estudo ajudam os cientistas a compreender funções fundamentais do cérebro e chegam a oferecer pistas sobre as origens da própria consciência.
Existem diversas categorias de anestésicos. Alguns bloqueiam diretamente a dor, enquanto outros deixam o paciente relaxado e sonolento. A anestesia geral vai além: induz à inconsciência, e o paciente fica sem qualquer percepção do que acontece em seguida. As substâncias variam de gases aparentemente inertes, como o xenônio, ao propofol, o anestésico geral mais comum. Apesar das estruturas químicas muito diferentes, o efeito geral é interferir na comunicação entre as células nervosas do cérebro, evitando que elas conversem entre si. Imagens de ressonância magnética mostram redução global da atividade cerebral, mas não está claro se a inconsciência exige o desligamento do cérebro inteiro ou se algumas regiões são mais importantes do que outras.
O professor de biofísica e anestesia Nick Franks, do Imperial College de Londres, aponta o tálamo, estrutura oval em local profundo do cérebro que age como núcleo central entre as regiões cerebrais, como a área que parece se desligar primeiro. Segundo ele, estimular uma parte muito seletiva do tálamo pode acordar um animal anestesiado, e estudos mostram que algumas pessoas em coma podem ser despertadas por estimulação talâmica. Outros cientistas acreditam que o córtex cerebral seja a principal "casa da consciência", enquanto lobos frontal e parietal também aparecem relacionados.
Há ainda indicações de um estado intermediário de consciência. Calcula-se que um em cada 15 mil pacientes que passam por cirurgia possa se lembrar de aspectos da intervenção depois de acordar, fenômeno conhecido como consciência acidental. O anestesista Jaideep Pandit, dos Hospitais da Universidade de Oxford, acredita que esses indivíduos vivenciem um "terceiro estado", entre adormecer e acordar. Em seus estudos, ele usou um torniquete para evitar que o relaxante muscular paralisasse o antebraço e concluiu que um terço dos pacientes conseguiu, sob comando, apertar os dedos do responsável pelo experimento, sem sinais de estarem acordados nem de sentirem dor.
O neurocientista Andrea Luppi, da Universidade de Cambridge, examinou cérebros sob anestesia e concluiu que, sob os efeitos dos medicamentos, os cérebros individuais deixam de ser tão "únicos" e passam a ser mais parecidos entre si — e também menos distintos do cérebro de outros primatas. Para ele, a anestesia impede diferentes regiões de conversar entre si, o que reforça a ideia de que a consciência não resulta da atividade em uma região específica, mas de uma rede. O professor Boris Heifets, da Universidade de Stanford, resume: "Nossa compreensão da consciência é muito rudimentar".
Esta matéria foi publicada primeiro em Internacional · BBC News Brasil e republicada aqui com tratamento editorial (síntese dos pontos mais relevantes), a partir de feed RSS. Ver publicação original.
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